O movimento armorial na literatura

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Em 2010, fui convidado pela Revista Continente para participar da edição especial sobre o Movimento Armorial e seus desdobramentos em diferentes linguagens artísticas. O texto que segue abaixo é o que foi publicado na revista, com algumas alterações.

As fronteiras do Reino

Antes de escrever este texto, tive uma breve conversa com Ariano Suassuna. Ao lhe mostrar o meu exemplar da Pedra do Reino, ele brincou: “Sabe como meus alunos da UFPE chamavam este livro? O tijolão do Reino. E muita gente me dizia que hoje em dia ninguém lê um livro desse tamanho”. No entanto, o prestígio da principal obra do autor de Auto da compadecida continua a crescer. O Romance d’A Pedra do Reino (1971), além de ter sido adaptado para o teatro e a televisão, já passou da décima edição, feito considerável para um livro que ficou anos fora de catálogo e que é marcado por uma trama e estrutura bastante complexas. O interesse por este romance, na verdade, é um sinal do interesse que, 40 anos depois, o Movimento Armorial continua despertando nas pessoas.

Como apontam diversos estudos sobre o tema, o Movimento Armorial começou a sua gestação décadas antes do seu lançamento oficial, em 1970, e dialogou com as intensas transformações sociais e culturais que o país atravessou desde a década de 50. Assim, tínhamos um Brasil cada vez mais aberto ao capital estrangeiro, à indústria cultural, à cultura pop e caminhando para um inchaço urbano sem precedentes, cujas estrias de violência, caos e conflitos sociais tão bem conhecemos hoje. Um Brasil que mudava de cara com muita velocidade e que vivia sob a sombra do autoritarismo e do chumbo. A literatura brasileira daquele momento dialogava intensamente com essas transformações, nas obras de José Agrippino de Paula, Antonio Callado, Ignácio Loyola Brandão, Rubem Fonseca, entre outros.

A Pedra do Reino

Neste contexto de intensas transformações sociais e culturais, a pergunta a respeito do que, afinal de contas, é o Brasil reapareceu com bastante intensidade no Movimento Armorial. Com tantos conflitos, tanta efervescência cultural e tanta Coca-Cola, a verdadeira “alma” do Brasil estaria ameaçada? Esta foi a inquietação que moveu Ariano Suassuna a escrever A Pedra do Reino, que sem sombra de dúvidas é a obra que faz a síntese dos pressupostos armoriais. Podemos dizer que é na literatura que se encontra o “coração” do movimento armorial. Não apenas porque o seu idealizador é um escritor, como também porque foi na prosa e no verso que Ariano Suassuna pensou as questões fundamentais sobre o movimento. A palavra armorial, por exemplo, aparece pela primeira vez não em 1970, ano de lançamento oficial do movimento, mas sim na poesia de Ariano Suassuna, com o poema “Canto armorial”, escrito em 1950.

E quais pressupostos, afinal de contas, seriam esses? Segundo Carlos Newton Junior, no livro O pai, o exílio e o reino, o armorial queria criar uma cultura erudita a partir da cultura popular, para combater um suposto processo de vulgarização da cultura nacional em decorrência das transformações culturais, políticas e sociais citadas antes. O armorial possuía duas linhas de ação: recriar uma arte erudita a partir do romanceiro popular nordestino e aproximar esta criação à heráldica, à cultura dos emblemas, dos estandartes e das alegorias.

No caso do romanceiro popular, os escritores deveriam retomar personagens, formas fixas e imagens poéticas da poesia popular, bem como se aproximar de uma certa atmosfera mágica, encantada, épica e barroca, que eram consideradas pelo movimento típicas da cultura popular. Na proximidade com a heráldica, reside, acredito, o grande achado do Armorial: os emblemas, os glifos, as alegorias e os esmaltes fazem parte de uma vertente importante da nossa cultura – seja nos estandartes das procissões e penitências, nos campos de futebol, ou nas estripulias das ladeiras de Olinda – e conferem uma visualidade muito marcante às obras do movimento.

O Movimento Armorial foi, em nossa literatura, o último projeto de matriz regionalista. Não porque aderisse a uma concepção neonaturalista de linguagem, mas sim porque vinculava a uma região específica, o nordeste sertanejo, o cerne da constituição de uma identidade nacional e de uma cultura “verdadeiramente” brasileiras. Outra não é a tese de Sônia Lúcia Ramalho de Farias, professora da UFPE que publicou o livro O sertão de José Lins do Rego e Ariano Suassuna, no qual traça paralelos e afinidades entre o Movimento Armorial, em especial a Pedra do Reino, e as ideias regionalistas de Gilberto Freyre.

Aproximar o romance de Suassuna do regionalismo significa inseri-lo em uma tradição literária que pode ser traçada a partir do romantismo brasileiro, passando pela Escola do Recife, pelo Regionalismo de 1926 e alcançando o seu último momento nos poemas e na prosa armoriais. O projeto literário do Armorial também é o nosso último projeto “humanista” e “moderno” por excelência. Tanto na década de 70, quanto nas posteriores, a literatura contemporânea se apresenta mais fragmentada, propondo projetos – supondo ser possível usar esta palavra – mais difusos e/ou politicamente corrosivos. Foi, assim, a última tentativa da criação de uma totalidade coesa que pudesse dar conta de uma série de inquietações simultâneas. Fascinante: o armorial quis fundar as Novas e Verdadeiras Poesia, Arte, Dança, Artes Dramáticas e Música; seu movimento foi ao mesmo tempo marcado pelos signos da inovação e do reacionário. Tanta energia de agregação em torno de um projeto de explicação do nacional não se repetirá mais em nossa literatura, porém talvez tenha ajudado a formar, ironia das ironias, a espinha dorsal ideológica do movimento musical do Manguebeat, cujo surgimento, ao menos em um primeiro momento, colocou em tensão os líderes Fred 04 e Chico Science com Suassuna.

O compromisso com O Projeto acaba prejudicando o resultado estético final da Pedra do Reino? Se o seu primeiro romance, A história do amor de Fernando e Isaura, ainda constitui um exercício, e o seu último romance romance publicado, o esgotadíssimo O rei degolado ao sol da onça caetana, se perde justamente na vontade de tomar um partido político e cultural, a Pedra do Reino consegue, em boa parte dos seus momentos, um excelente equilíbrio. Quando impera o humor, o mágico, o imagético, a ambiguidade, as visagens e a jurema, o romance faz juz à condição de uma das obras mais importantes da nossa ficção nas últimas décadas. Há também, nas suas entrelinhas, um senso trágico e uma certa melancolia que acrescentam camadas densas de significado (vejam, por exemplo, o belo capítulo “A aventura dos cachorros amaldiçoados”). No entanto, quando o texto sente a necessidade de explicar em excesso o Brasil e expor e sintetizar os pressupostos do Armorial, a leitura se desgasta. É curioso, mas a poesia de Ariano, na qual há belos versos que mereceriam mais leitores, consegue força ao privilegiar as imagens fortes e os dramas existenciais, usando o Projeto-Armorial como ponto de partida e não como ponto de chegada.

Os poetas e prosadores do Armorial

Segundo Idellete Muzart Fonseca dos Santos, no livro Em demanda da poética popular, uma série de poetas e prosadores se aproximou de alguma maneira do Movimento Armorial. Os nomes de maior destaque foram Ângelo Monteiro, Deborah Brennand, Janice Japiassu, Marcus Accioly, Raimundo Carrero e Maximiano Campos. Eles foram escritores armoriais? Da leitura da obra destes escritores, percebe-se que a adesão ao movimento armorial foi muito mais em relação ao contexto de produção do armorial do que de fato à profunda incorporação dos seus elementos estéticos. Desta forma, sugiro a hipótese de que a literatura armorial por excelência continua a ser a prosa, a poesia e a dramaturgia de Ariano Suassuna. Isso não impede que os chamemos de armoriais; contudo, chamo atenção à evidência de que, em diversos casos, a estética Armorial teve uma influência secundária na constituição desses textos.

Vamos aos exemplos. Aquele que seria o livro-adesão de Ângelo Monteiro, Armorial caçador de nuvens, apesar da presença de Reinos, de Caçadas, de Brasões e de formas poéticas populares, sofre muito mais a influência do hermetismo, do surrealismo, dos problemas propostos pela filosofia (elemento marcante da poética de Ângelo, que já se revela aqui) e principalmente de Jorge de Lima. Algo semelhante ocorre com Marcus Accioly. O livro de Accioly geralmente associado ao armorial é Nordestinados, publicado em 1971. Se aqui a poesia de Accioly e do Movimento Armorial compartilham o interesse em retomar, no erudito, as formas populares (mas este interesse não me parece o suficiente para classificar por si só uma obra de armorial), estão ausentes o mágico, o heráldico e a atmosfera de encantamento que também seriam as marcas da literatura armorial. Pelo contrário, se faz presente, do início ao fim do livro, a influência de João Cabral de Melo Neto, assim como o compromisso de mapear, poeticamente, todos os aspectos da cultura nordestina, das pedras às habitações.

Com a obra de Raimundo Carrero, acontece um caminho oposto à de Accioly. Se neste, a aproximação com o Armorial ocorre pelo interesse de construir uma cultura e identidade do Nordeste, em Carrero a aproximação se dá na pura imagem. No seu romance de estreia, associado por Ariano ao Armorial, A história de Bernarda Soledade – A tigre do sertão, somos levados a acompanhar uma história de emblemas, cavalos-fantasmas, visagens. Embora a história se passe em uma fazenda, não há nenhum compromisso em pensar a região do sertão, problematizar questões sociológicas e políticas do Nordeste, ou fundar uma outra cultura brasileira. Muito pelo contrário: como aconteceria também com Sombra Severa, publicado mais de uma década depois, a história de Bernarda Soledade acontece no mundo rural muito mais porque neste espaço Carrero pode desenvolver alguns dos temas que são recorrentes no seu trabalho: a violência, a questão do mal, a sexualidade vivida em seus extremos, a corrosão da própria identidade, o império sobre o Outro. Longe está, já nesse primeiro livro, o compromisso de pensar o nacional.

Literatura contemporânea e o Armorial

De que maneira o Movimento Armorial ecoa na nossa literatura, hoje? Um nome de destaque com certeza é Carlos Newton Junior, que tem retomado a estética e os pressupostos do movimento em seus ensaios e na sua poesia. Há pouco tempo, o poeta e dramaturgo pernambucano, radicado na Paraíba, Astier Basílio, escreveu a peça Ariano, que reconta a biografia do criador de Quaderna através de elementos estéticos do Armorial. Em seu livro de poemas Searas do sol, uma série de versos possuem afinidade com a poética armorial. A partir da década de 90, no Ceará, o poeta Virgílio Maia também se aproxima do movimento.

Em Pernambuco, dos anos 80 para cá, vejo pouca presença da literatura armorial, principalmente no caso da poesia. Poetas surgidos no contexto da poesia independente (também chamada de Marginal), como Cida Pedrosa, Luiz Carlos Monteiro e Miró, não tem especial proximidade com o armorial. Da mesma forma, jovens escritores surgidos a partir do final dos anos 90 e início do 00, publicados nas duas antologias Invenção Recife, ou nas revistas literárias Crispim, Vacatussa, Entretanto, Interpoética e nas publicações da editora independente Livrinho de Papel Finíssimo, não dão continuidade à estética. Isso também parece ser verdade para a Geração Nós Pós & Freeporto. É digno de nota, contudo, que no romance O grau graumann (2002), de Fernando Monteiro e em Galileia (2008), de Ronaldo Correia de Brito, existam algumas críticas ao armorial. No caso do primeiro livro, o discurso de Ariano Suassuna é parodiado; já no romance de Ronaldo, há uma evidente crítica às matrizes regionalistas com as quais o Armorial possui afinidades.

E o que as novas gerações de escritores podem aprender com o Armorial? Se a constituição do Brasil e de um cultura nacional já não é uma preocupação das gerações recentes de criadores, nem dos teóricos atuais, outros aspectos do movimento, como o diálogo com o popular, o exercício da imaginação, das visagens e da sedução dos olhos, a valorização das tradições literárias e o sempre bem-vindo humor, podem se tornar um caminho fecundo de inspiração. São os principais motivos, aliás, para que continuemos a ler o “tijolão”, vulgo Pedra do Reino, e que confirmam a relevância do legado de Ariano para as nossas letras.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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