O mundo, a bola, o boneco e o pássaro

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Existe algo em comum entre o Batman, a escritora canadense Alice Munro, dois garotos e um clube de leitura? Sim: um mero dia. Semana passada, após as aulas da manhã, fui gentilmente convidado a almoçar na casa de uma colega de trabalho, pertencente ao mesmo departamento de Letras onde comecei a dar aulas a partir deste ano. Ao chegar acompanhado de outra colega, fomos recebidos pelos filhos da anfitriã. Apesar de terem chegado da escola há pouco tempo, os meninos não demonstravam nem um pouco de cansaço; pelo contrário, fizeram questão de me revelar, com riqueza de detalhes, o motivo pelo qual hoje escrevo este texto para vocês.

Que revelação foi esta? A do pequeno mundo particular no qual ambos vivem. Um dos irmãos tem 6 anos de idade; o outro, 4. Não me entendam mal por eu ter usado a palavra pequeno, porque trata-se de carinho e, pensando bem, talvez eu devesse utilizar outras palavras, entre as quais fragilidade. Não sei se alguém sente o mesmo, mas volta e meia me acomete a seguinte sensação, a de que uma determinada experiência pela qual estou passando pode se desmanchar a qualquer momento; uma atmosfera de perigo circunda a experiência, mas não porque haja de fato uma ameaça, ou qualquer maldade, no horizonte. O fato é que há o tempo e às vezes já quero pagar as suas faturas adiantado.

“Meu pai tem 43 anos!”, um deles me explicou, “ele é muuuito velho!”. Argumentei que eu próprio não estou tão longe da idade do papai deles; ambos me olharam não com pena, mas sim com aquela fascinação que sentimos quando prestamos atenção a um fóssil exibido em um museu. Enquanto almoçávamos, os garotos me falaram do passarinho de estimação da família. Perguntei a cor do animal. “Verde”, responderam e por conta disso perguntei se o bicho não era um monstro, porque todo monstro é meio verde. “Claro que não!”, o de 6 disse, “minha pasta de dente é verde e não é um monstro!”.

Terminada a refeição, eles me mostraram alguns chapéus legais, uma bola de futebol e uns bonecos bem bacanas de super-heróis. Tiramos fotos e fizemos vídeos – o mais novo produziu um vídeo do Batman voando; o mais velho colocou luvas de goleiro e fez com sua bolinha vários dribles pela sala. Por fim, conheci o quarto dos garotos e folheamos alguns livros. Logo chegou a hora dos adultos voltarem ao campus. A última imagem do nosso encontro foi esta: o mais velho, voz manhosa, agarrado às pernas da mãe, pedindo que ela não fosse para o trabalho conosco.

Terminados os trabalhos do dia, no caminho de volta para casa continuei pensando. Lá em cima pendurei fragilidade. Agora é a vez de outra moldura: familiaridade. No entanto, a sensação não vinha por causa do básico da ideia, ou seja, de que se tratava de ter conhecido uma família. A conexão, creio, é outra. Neste semestre, a última atividade das quintas-feiras de manhã consiste em um Clube de Leitura voltado em especial para os alunos de Letras e Jornalismo. Debatemos o conto “Fugitiva”, escrito por Alice Munro. Após as conversas iniciais, minha colega e eu – os dois professores responsáveis pelo projeto – passamos a ler com os participantes as cenas e parágrafos mais importantes do conto, uma agridoce narrativa sobre sacrifício, relacionamentos e submissão. Foi fascinante perceber o quanto já nas primeiras páginas – trata-se de um texto longo – Munro planta um conjunto de sugestões e mecanismos que vão garantir a força dramática das cenas posteriores, cheias de tensões e subtextos; além disso, espaço, animais e objetos reverberam, antecipam e em especial criam uma amarração poética para o mundo criado dentro do texto.

Todo bom texto ficcional possui uma conexão com o gesto daqueles dois garotos. Primeiro, eles me narraram, ao seu modo, uma experiência. Qual seria? A experiência de serem eles mesmos, bem como a abertura, vertiginosa, por que não dizer em parte assustadora, em relação a um mundo enorme, cheio de complexidades. Além disso, a bola, o boneco, ou o pássaro são todos âncoras que estabilizaram uma ferramenta importante, sem a qual o trabalho de um escritor nada significa: a imaginação. Assim, atenciosos, duas crianças e uma escritora canadense de 83 anos me convidaram, construindo-as pedacinho por pedacinho, às suas paisagens pessoais. Ter o privilégio de visitá-las em um mesmo dia… Há alguma definição melhor para a palavra benção?

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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