Árvore de Maravilha | O mundo todo é mesmo um saco, ou uma crônica pré-Natal

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O mundo todo é mesmo um saco, ou uma crônica pré-Natal
Aline Arroxelas

À medida que o calendário vai esgotando o mês de dezembro, sinto se instalar um leve desespero. Porque há inúmeros presentes a comprar. Há planos a fazer. Decisões precisam ser tomadas – ainda que seja algo como escolher o que dar ao amigo secreto sobre quem você só sabe o primeiro nome. E tudo isso, as compras, os planos, a comida, as confraternizações, as viagens, os telefonemas, os parentes distantes, a droga do peru, tudo isso só significa uma coisa: muita gente. E muita gente quer dizer chateação, tempo perdido, e filas, filas intermináveis. No supermercado, no estacionamento do shopping, no caixa daquela loja de R$2,99.

Besteira dizer que esperar em filas é chato, ainda mais no Natal. É um saco. Mas pior, muito pior mesmo, é esperar em uma fila com um idiota do seu lado, e essa certeza vale pro ano inteiro.

É que, no dia-a-dia, a gente naturalmente evita os imbecis, os inconvenientes e afins. Dá pra arrumar maneiras de fugir de alguém cuja conversa não é lá muito aprumada: “vou ali falar com fulano”, “acho que vou pra casa mais cedo”, “olha, você já conhece beltrana?” (e aí você apresenta aquela conhecida bem chatinha pro mala). Mas numa fila simplesmente não dá. Se você ficar preso em uma fila demorada, e a pessoa imediatamente à sua frente ou às suas costas é do tipo que você gostaria de erradicar do planeta, será uma catástrofe.  Fato consumado. À impaciência da espera se somará a irritação e a angústia pela tortura psicológica. Não é à toa que, em lugares fechados, de vez em quando alguém dá a doida e saca da bolsa uma metralhadora, ou, de forma mais prosaica, dá a si mesmo o direito de dar um baile deseducado e perder a compostura.

E nada fará o chato, ou a chata, calar o bico. Você terá, sim, que balançar a cabeça para fazer de conta que está ouvindo e prestando atenção, enquanto o outro discorre sobre sua interessante história familiar ou faz comentários atrozes sobre um assunto particularmente caro a você. Mas você se retorcerá e não corrigirá o infeliz, só pra não encompridar ainda mais o suplício. É sempre melhor, nesses casos, concordar.

E se for fila de cinema, então, meudeusdocéu: seu encosto espiritual vai fazer questão de te contar sobre todas as críticas e o material que ele catou na internet sobre o filme, além da biografia de toda a equipe técnica. Se for do tipo metido a intelectual, talvez se arrisque a fazer paralelos entre a obra a Bergman e “American Pie”; mas se for do tipo absolutamente intragável, vai comentar que não gostou de “Superman” porque achou mentiroso demais. Esse tipo de coisa é que faz você ter vontade de dizer que “Matou a Família e Foi ao Cinema” foi inspirado nos seus hábitos de lazer.

No entanto, ruim, ruim mesmo, é ter o azar de se meter em uma fila com um velho conhecido (com quem você perdeu – propositadamente – todo o contato há dez anos), ou com um desafeto velado. Com ambos, você tentará sorrir (sem muito sucesso), mas, enquanto com o primeiro você tentará falar o mínimo e enfaticamente repetirá a mentira do “a gente precisa marcar alguma coisa”, com o segundo você precisará fazer parecer que não se importa, brincando o jogo da indiferença fingida. É tanto esforço pra parecer indiferente que chegaria a ser quase engraçado, se não fosse realmente deprimente. Pensando assim, parece bem natural o velho truísmo de que as taxas de depressão e suicídio sobem às estratosferas durante as festas de fim de ano: é muito esforço pra parecer normal em um mundo padronizado!

Por isso que eu não saio sem um livrinho a tiracolo (se eu tivesse um iPod, também lhe seria grata). Qualquer coisa que me dê cobertura contra estranhos demasiadamente simpáticos ou conhecidos demasiadamente incômodos. Uma bolha para me proteger do resto do mundo, e, por que não, proteger o resto do mundo de minha própria chatice. Porque o mundo inteiro já é mesmo muito chato, e eu não sou, claro, nada diferente. Mas pelo menos eu não obrigo o pobre coitado da fila dos embrulhos para presente a partilhar comigo dessa dolorosa constatação.  E olhe que eu até gosto do Natal.

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