O nome retirado – Cristhiano Aguiar

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Foi uma biblioteca que me ensinou, pela primeira vez, a vida e a morte nas cidades. Chamada Cantinho da Gente Miúda, se localizava no térreo de um alto edifício comercial, em cujos andares funcionavam apenas consultórios médicos. A proprietária, uma mulher de meia idade fissurada em charutos e livros esotéricos, cujas gargalhadas ecoavam pela sala onde funcionava o Cantinho, não conseguiu manter o empreendimento e logo precisou fechar as portas.

Eu tinha virado cliente por volta dos nove anos de idade e loquei livros intensamente até os doze. Chegava lá, conversava com a dona e o único funcionário enquanto passava um tempão folheando livros de Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Sylvia Orthof, Marcos Rey, Ruth Rocha, Ziraldo, entre tantos outros. Após escolher os livros que locaria, os colocava na sacola de papelão fornecida pelo próprio Cantinho e seguia para casa, onde lia, com uma liberdade que nunca mais tive, até dormir.

Sempre achei engraçado aquelas pessoas que me dizem: “a vida não se aprende nos livros”, como se por dentro mesmo da própria rua não estivéssemos o tempo todo lendo placas, sinais, rostos. Os próprios lugares por onde nos deslocamos e vivemos, embora não sejam encadernados em capa dura e impressos com papel, dificilmente nos respeitam se não nos dispomos a decifrá-los e recontá-los. Digo isto porque um dos meus maiores desafios como leitor não foi, sei lá, páginas de João Guimarães Rosa, Osman Lins, ou da mais intrincada filosofia, mas sim a grade de ferro que encontrei cerrando a saleta onde o Cantinho funcionava. Eu já estava na adolescência e há anos não frequentava mais a biblioteca. Quando soube, por amigos, do seu fechamento, lamentei, mas não senti abalos imediatos com a notícia. Mesmo assim, por curiosidade, dias depois decidi passar por lá. É que, mesmo não sendo mais sócio, havia uma segurança, uma satisfação semelhante àquela sentida quando colocamos a última pecinha no espaço vazio de um quebra-cabeças montado sobre a mesa. Lá estavam as grades de ferro; acima delas, o nome retirado da biblioteca. Me mantive em pé por alguns instantes, tentando decifrar o que nem mesmo sabia sentir. Só fui interrompido quando um dos seguranças do prédio me abordou, curioso com meu comportamento.

Assim como meus parentes mais velhos, pela primeira vez eu tinha um lugar desaparecido para chamar de meu. Em histórias de terror, às vezes a morte nos transforma em fantasmas; nas histórias de ficção científica, personagens transferem o seu Eu para dentro de computadores e outras máquinas. Mas a verdade é que não existe um Eu guardado, intacto e sólido, dentro da gente. O que guardamos, se pudesse ser “extraído”, sequer teria uma forma humana. Somos um corpo que se projeta pelos espaços através de diferentes relacionamentos e imaginários. A saúde desta interface, aliás, é fundamental. Não pisamos apenas onde nossos pés se posicionam; pelo contrário, estamos espalhados pelos lugares que fazemos acontecer e que conosco acontecem. Sempre que as cidades desmoronam ou se levantam, minha memória resgata este pequeno episódio, não para me torturar ou conjurar qualquer tipo de autopiedade, mas sim para me lembrar quanta lucidez precisa existir naquilo que se preserva, ou se deixa para trás.

 

Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande-PB, em 1981. É escritor, crítico literário e doutorando em Letras pela Mackenzie. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Foi escritor-residente da University of East Anglia. Editou as revistas Crispim e Eita!. Contato: cristhianoaguiar@gmail.com / https://twitter.com/cristhianoag

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