O peso II

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II

Ele faz legal com o dedo.

Retorno mostrando um bolinho de moedas. Poucas, é verdade.

Ele abre o sorriso e diz “bom dia”.

Não diz só bom dia: escancara a face para o meu mundo e diz que a vida é assim mesmo e vai levando e está tudo bem com sua vida, ou pode estar mal também que isso não é diferença que se faça. Mas agora ele diz tudo isso com seu sorriso e escuto essas palavras por detrás da sua cabeleira prateada e suja.

É um bom dia com uma alegria que não estava em mim. E talvez nele também não, mas era bom ator. Formado na escola de teatro de pedintes. Dei as moedas tocando de leve sua mão estendida. Falou em Deus, eu disse “amém”. Que sempre falo amém, mesmo sem acreditar em Deus, que não quero maltratar suas esperanças.

Mas e se ele não acreditar também em Deus e esse negócio de ficar falando amém sempre for em vão?

Não sei, mas no outro sinal fecho a cara. Um garoto sujo e triste me pede um trocado. O nariz escorre uma lágrima. Digo “tem não meu filho”. O peso é menor. A dor que me consome pelos outros.

Ele me encara triste. Digo “sai daqui, porra”.

E dou ênfase no “porra”, esticando o “pooor”.

Prefiro velhos alegres que garotos tristes.

Saio acelerando e rindo no carro. Ainda digo comigo “vai trabalhar, poooorra”. E o sorriso do velho me acompanha no seu peso maior.

Foda-se o garoto. Amém.

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Sobre o autor

Nasceu em Goiânia-GO e vive em Petrolina-PE. Com o livro Olho morto amarelo, foi o grande vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura em 2013. Em 2015, lançou O contrário de B. (Confraria do Vento). E-mail: bl.liberal@gmail.com

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