O peso

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I

O velho quase arrebenta o mar de músculos. Também estica a cara fazendo força, apressadamente andando e segurando firme o carrinho de mão. Carrega tijolos, faz careta, morde a língua. As mãos ardem em contato com o ferro agora quente do seu corpo. Eu aqui olhando isso tudo enquanto passo com os vidros levantados na temperatura 18 do carro e o som represado na cabine de direção elétrica, sem esforço algum para mover um passo. O velho segue nessa batida sem se dar conta que passei por ele em câmera lenta e observei seus músculos suados. Ele, que não se importa comigo porque precisa levar esses tijolos para algum lugar na frente. Na direção oposta minha. Eu, que nunca levei meu carrinho de mão para além da minha cabine, que nunca carreguei meu peso de vida além da imaginação. O velho sem camisa faz muita força para avançar na rua de paralelepípedo. Carrega seu próprio peso nos tijolos. Deve ser para a parede sem reboco que sustentará sua família. Deve ser para a parede sem reboco que expõe agora com os músculos tremendo. O céu escurecendo aos poucos, as famílias saindo para as calçadas, as crianças brincando de bola, outras e outras coisas todas acontecendo que não vejo mais porque o velho ficou comigo: sua cara amassada de força que faz força para se levantar dali e suspender a vida e continuar morrendo aos poucos até findar. Não agora, que agora é muito cedo e preciso levantar esse muro. Não agora, que agora também sou esse velho de cara amassada e preciso levantar cedo para subir com os tijolos nas mãos. Passar a massa e levantar esse abismo que criei e o peso de tudo isso na gravidade certa do meu próprio peso que carrego nesse receptáculo de ferro que sou.

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Sobre o autor

Nasceu em Goiânia-GO e vive em Petrolina-PE. Com o livro Olho morto amarelo, foi o grande vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura em 2013. Em 2015, lançou O contrário de B. (Confraria do Vento). E-mail: bl.liberal@gmail.com

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