O tempo e a espada

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"A ética não significa obedecer a um dever; significa pôr-se em jogo, 
com aquilo que se pensa, se diz e se crê"
- Giorgio Agamben
Para R.

Aqueles dias foram domesticados por um céu azulíssimo. Todas as espécies de descontrole, inequívocos tons de raiva e frustração, eram apaziguados ao caminhar pelas ruas de Santiago. Às manhãs, uma mistura perfeita de vento fresco e sol replicavam a temperatura de um abraço. Saía do meu hotel sem direção até encontrar o rio que rasgava a cidade pelo meio, levando a calma para suas margens de simetrias forjadas. De onde eu via, a cidade era mais europeia do que latina, ainda assim, algo me apontava na memória caminhos que levavam para casa. O Rio Mapocho tornava-se Capibaribe, e num entrepasso eu já estava à beira de outro oceano.

Eram milésimos de segundos que pareciam se abrir num abismo sem tempo. Entre o voleio de um pensamento e outro, não pude alçar qualquer argumento que pudesse me impedir de naufragar. Na primeira vez que nos vimos, sua presença me foi notada ainda que pudesse ter consciência. Ela conseguia inundar todos os espaços, de dentro e de fora. Estar com ela era como dar um mergulho. Era como perder o controle dos atos, o senso de gravidade. Com ela, eu me senti envolto e surdo.

Quando me descobriam brasileiro, me perguntavam com toda intimidade sobre as próximas eleições. Animados com a possibilidade de mais um mandato de governo de esquerda (ainda que longe disso), demonstravam entusiasmos pelas políticas de aproximação entre nossos países nos últimos anos. Eu respondia com cautela lhes tentando fazer enxergar nossa complexa paisagem histórica, social e política. Fazia minhas críticas ao atual presidente, ainda que jamais deixasse de sonhar em conseguirmos construir para nós melhor futuro. Eles em tréplica equivaliam meu excesso de cautela com pessimismo, e passavam a me contar sobre aspectos latentes do que foi ditadura chilena. Mais uma vez eu via que de fato que para amar o Brasil basta não ser brasileiro. Sendo eu aquela minoria de tolos que fogem à exceção.

Tudo nela me escapava, ainda que não fosse difícil percebê-la se infiltrando. O ritmo e a cadência que imprimia em sua fala eram como solução aquosa que me atravessava as membranas. Eu a respondia um tanto autômato, porque àquela altura já não era pela razão que conseguia absorver suas palavras. Até porque ainda era raso meu castelhano. Fora disso, sorrir demasiado era o único mecanismo que funcionava enquanto maior parte de mim permanecia atônita.

Apesar da incômoda sensação constante de solitude que me perseguia, o passeio à beira do rio me trazia de uma sensação mundana de preenchimento. Eu olhava demasiado para cima e com desenhos triangulares meu olhar percorria detalhes da arquitetura que passava por mim. Os verdes que se derramavam dos telhados, das varandas e das janelas me ativavam a necessidade de respirar fundo. Respirar melhor. Respirar. Amparado pelo cansaço que já anunciava sua presença há três quilômetros atrás, me permiti deitar na grama de um convidativo parque cujas esculturas me faziam boas sombras. Do paletó fiz travesseiro. Eu cochilei aliviado quando consegui me desprender de pensamentos.

Os ponteiros do relógio pesavam como espadas e me apontavam demasiado os pés. Entre os passos apressados e o constrangimento de um possível atraso algumas palavras de Allende sobre educação e cultura popular serviam de hipertexto naquela minha tentativa de criar algum breve discurso. Naquele início de noite, apresentaria o meu terceiro livro de novelas a ser lançado num charmoso café próximo a uma antiga estação de trem. Foi assim aturdido em minha própria verborragia interna que me meti porta adentro sem me lembrar da cortesia de seguir certas regras de interação social. Foi quando a vi de longe e a partir dali passei a entender que certos encontros estão fora da Ordem.

Sentei-me à mesa acompanhado de um amigo e muitas cópias do livro. Enquanto eu falava sobre alguns aspectos da narrativa, tentava usar as porções de livros espalhados pela mesa para servir de barricada para o olhar dela que me queimava e enternecia. Acabadas as falas, os aplausos e os apertos de mãos que se seguiram, restava apenas sua presença que não conseguia ignorar. Me sentia encolhido, acuado, ainda que tudo nela indicasse doçura. Quanto mais ela sorria, eu me sentia sitiado, não era menos sublime do que se saber cercado pelos Andes. Me vi para dentro de um conto, e não sabia se Cortázar, Casares ou Galeano.

É possível que não tenhamos conversado mais do que quarenta e cinco minutos. Um tempo que se expandiu sem minha anuência ainda que se tenha tornado minha mais preciosa obsessão. Nos despedimos, trocamos endereços, escrevemos cartas por quase um ano. À distância, o que mantém assídua sua permanência são as mensagens criptografadas nas escolhas que envolvem minha rotina. Há música. Às custas da realidade, fingimos não nos querer. É assim que em certas noites acendo uma vela ao Deus Chronos para que faça o tempo correr e envelhecer sentimentos. Ainda que quem reine, com todos os seus danos, o Deus Kairós. Ser dela, é ser quase inumano.

 

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