On the road (Pé na estrada) – Jack Kerouac

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Cinqüenta anos de estrada

Aponte o polegar para aonde você quer ir. Se for para o Oeste, então venha porque também estamos indo até lá, na companhia de Sal Paradise e Dean Moriarty, personagens de On the road (Pé na estrada), obra de Jack Kerouac que em setembro completa cinqüenta anos de publicação. Nessas cinco décadas, o livro abriu caminho para toda uma nova leva de escritores, recebeu o título de “bíblia da geração beat”, fundou os alicerces do que viria a ser a atitude rock n’roll e ganhou tons de lenda.

Isso tanto pelo conteúdo interno, quanto pela sua aura que por vezes ofusca a obra. Talvez a principal sombra venha do fato de Kerouac tê-la escrito em apenas três semanas num rolo de papel telex, inspirado nas improvisações do jazz e sob o efeito de benzedrina. O resultado foi quarenta metros de papel datilografado com uma linguagem espontânea, verborrágica e com a sonoridade das ruas americanas da época. Era o grito ansioso de quem finalmente encontrava a liberdade das amarras de uma América conservadora.

O grito ainda ficou entalado por seis anos até a sua publicação. Quando saiu, apesar de ter 120 páginas a menos que a versão original e algumas vírgulas a mais incluídas pelo editor, On the road foi alçado ao ápice da geração beat pelo The New York Times. Tudo bem que o crítico era um free lancer e na semana seguinte o titular do jornal não foi lá muito simpático com o livro. Mas era tarde demais, Kerouac já havia se tornado uma celebridade, o guia de milhares de jovens ansiosos para descobrir o mundo e curtir a vida ao som do jazz.

Com base nos seus sete anos de estrada, Kerouac levou não só suas experiências para o enredo de On the road, como também o espírito juvenil de sempre olhar para frente, sem muito apego ao passado. Seguimos pela narrativa de Sal Paradise, o alter-ego de Kerouac, como se estivéssemos assistindo a tudo pela janela dos carros, ônibus e trens que o ajudaram a cruzar os Estados Unidos. É nesse ritmo frenético, sem muito tempo para se prender a detalhes, metáforas ou sentimentos que acabamos conhecendo Sal e os seus amigos que encontrou ao longo das quatro viagens que fez rumo ao Oeste.

A narrativa é uma sucessão de fatos, um atrás do outro. Pelo caminho Sal encontra amigos como Dean Moriarty, representando Neal Cassady, Carlo Marx (Allen Ginsberg), Old Bull Lee (William Burroughs) e uma vasta quantidade de tipos pelo interior dos Estados Unidos. Cowboys, aventureiros e fugitivos viram seus companheiros de viagem, amigos de um dia, fantasmas de beira de estrada. Os personagens aparecem, somem e desaparecem sem deixar nada além da lembrança das festas e bebedeiras vividas.

Sem muitos malabarismos de linguagem, Kerouac escreve as suas aventuras de forma direta, com o auxílio de adjetivos e descrições das cenas. Apesar de casar perfeitamente com o tema e a proposta do livro, esse tipo de narrativa pode até despertar a impressão no leitor de que se trata de uma obra superficial. Ainda assim, On the road é o registro de uma época, de uma geração pós-guerra que sobreviveu à depressão de 30 e aos horrores da Segunda Guerra Mundial e, por isso, precisa comemorar, de forma rápida, louca e incoerente, como o jazz de Charlie Parker.

Thiago Corrêa
lido em Jun./Jul. de 2007
escrito em 10.07.2007

: : TRECHO : :
“Nós as abraçávamos e dançávamos. Não havia música, apenas dança. O lugar lotou inteiramente. As pessoas começaram a trazer garrafas. Caíamos fora para curtir os bares e voltávamos voando. A noite estava se tornando mais e mais desvairada. Desejava que Dean e Carlo estivessem ali – aí percebi que estariam deslocados e infelizes. Eles eram exatamente como o homem melancólico da pedra que geme na masmorra, erguendo-se dos subterrâneos, os sórdidos hipsters da América, uma inovadora geração beat, com a qual eu estava me ligando lentamente.” (p. 78).

: : FICHA TÉCNICA : :
On the road (Pé na estrada)
Jack Kerouac
Trad. Eduardo Bueno
L&PM
1a. edição, 2004
384 páginas

: : LINKS : :
A mulher mais linda da cidade – Charles Bukowski
O capitão saiu para almoçar e os marinheiros tomaram conta do navio – Charles Bukowski
O caminho de Los Angeles – John Fante
Pergunte ao pó – John Fante
Sonhos de Bunker Hill – John Fante

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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