Onde vivem os monstros – Maurice Sendak

1

O amadurecimento do sonho

Numa época em que a violência das grandes cidades brasileiras se tornou parte do cotidiano, chega a ser difícil pensar no espaço reservado aos monstros no imaginário das crianças. Quando os efeitos especiais dos filmes e videogames ainda não conseguiam dar tons de verossimilhança a seres que fugiam aos limites da realidade, a escuridão e a monotonia serviam como um convite capaz de despertar a imaginação dos mais novos para povoar o mundo com criaturas esquisitas.

Esse universo nostálgico ganha um novo impulso por aqui com uma série de lançamentos do mercado editorial impulsionados pelo filme Onde vivem os monstros, com estreia no Brasil em janeiro. É bem verdade que parte desse rebuliço se deve ao diretor do filme Spike Jonze, conhecido entre o público cult por obras como Quero ser John Malkovich e Adaptação; mas também é potencializado pelo livro homônimo do americano Maurice Sendak que dá origem à película.

Com o currículo de já ter vendido mais de 18 milhões de exemplares nos Estados Unidos, o volume foi traduzido para mais de vinte línguas e arrebatou o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel dos livros para crianças. Lançado em 1963, Onde vivem os monstros foi alçado a clássico da literatura infantil por ter revolucionado a linguagem dos livros ilustrados.

Nele, as imagens não se limitam mais a reproduzir o que as palavras escritas dizem, as figuras aqui são usadas como elementos da própria narrativa, transmitindo novas informações e sensações ao leitor. Um exemplo é na forma como Sendak trabalha o crescimento da imaginação do menino Max, personagem que veste sua fantasia de lobo e acaba ficando de castigo após fazer estripulias.

Sem poder sair do quarto, a criatividade de Max começa a funcionar, fazendo aflorar árvores entre as paredes do seu dormitório. A medida que a mente fantasiosa do personagem expande os horizontes, as imagens do livro vão aumentando de tamanho até as paredes da casa de Max sumirem de vez para dar lugar a uma floresta e um oceano que o leva a terra dos monstros.

Quando isso acontece, as ilustrações preenchem a página por completo, ficando sem o efeito limitador das bordas em branco do papel. Um recurso a mais que Sendak usa para discutir o processo de amadurecimento das crianças decorrente da necessidade em educá-los, enquadrá-los em regras sociais, com os pais impondo limites aos desejos dos filhos.

Da mesma forma acontece com o texto, que passa a dialogar com os recursos do formato livro. Sendak explora a estrutura sequenciada das folhas de papel através da interrupção de frases que são retomadas na página seguinte, como uma estratégia de fazer suspense e criar expectativas no leitor. Essas características foram preservadas na edição brasileira, que sai pela Cosac Naify em capa dura, ilustrações coloridas e papel especial, por exigência do próprio Sendak.

Thiago Corrêa
lido em Set. de 2009
escrito em 23.12.2009

: : TRECHO : :
“E quando ele chegou aonde vivem os monstros, eles rugiram seus terríveis rugidos e arreganharam seus terríveis dentes e revivaram seus terríveis olhos e mostraram suas terríveis garras” (pp. 21-22).

: : FICHA TÉCNICA : :
Onde vivem os monstros
Maurice Sendak
Tradução: Heloisa Jahn
Cosac Naify
1a. edição, 2009
44 páginas

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

1 comentário

Comente!