Operação hífen

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O país está dividido. Nas ruas, redes sociais, conversas de bar, reuniões de família há os que vestem verde e amarelo e os que preferem vermelho. De um lado, os que concordam com a partidarização escancarada do Gilmar e os que clamam a imparcialidade do judiciário, os que fecham os olhos para os abusos do Moro e os que pedem respeito à Constituição. Apesar desse clima tenso, quando tudo parece servir de combustível para discussões, é de se estranhar que até agora não tenha aparecido nada, absolutamente nada, sobre a grafia da tão falada operação da Justiça Federal.

Afinal, ela tem ou não tem hífen? Escreve-se junto ou separado? E a preposição, é mesmo necessária ou pode ser ocultada? Com crase ou sem crase? Nem a poderosa Globo, com seu tão exaltado padrão de qualidade e o peso da mão de ferro para uniformizar opiniões através do seu jornalismo, conseguiu se decidir. No G1, Globonews, O Globo e Jornal Nacional, ora aparece Lava Jato, ora vem grafado Lava-Jato. Onde estão os gramáticos deste país? Cadê os reformistas do novo acordo ortográfico que não se pronunciam? E os imortais da Academia Brasileira de Letras? Alô, professor Pasquale?!

Talvez o silêncio sobre o caso seja um reflexo da confusão que está instaurada. Do jeito que a coisa vai, não duvido nada que esses estudiosos estejam com medo de dar suas opiniões. Vai que uma autoridade fica contrariada e os gramáticos terminem pagando o pato, acusados de obstrução de justiça, entrando na lista de investigados e grampeados pelo juiz Moro. Imagina como ficaria suspeito esse diálogo precedido do tan, tan, tan da Globo:

– Alô, professor Pasquale?
– Oi.
– Estou mandando os papéis aí pelo Messias.
– As provas?
– Isso, pode tacar a caneta vermelha.

O risco é grande. Os coitados dos gramáticos vão acabar sendo acusados de petralhas, a favor de um governo legitimamente eleito. Ou, pior, infinitamente pior, de serem chamados de coxinhas! Pode parecer brincadeira, mas estou falando sério. A situação tá tão complicada que até a ortografia foi judicializada. Em rápida busca no Google, descobri uma matéria de março do ano passado sobre um pedido da OAB para pedir assento na comissão para acompanhar o Tratado Internacional do Acordo Ortográfico.

Em meio a tantos questionamentos, só nos resta uma certeza. A falta de educação que estamos observando revela com mais urgência a importância da continuação da Pátria Educadora, com mais aulas de ortografia e, principalmente, de interpretação de texto.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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