Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

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Saudades de um lugar que nunca existiu

Milton Hatoum é, sem sombra de dúvida, um dos mais talentosos escritores brasileiros da atualidade. Um dado ajuda a entender o impacto desse manauense na literatura nacional: seus três livros até agora lançados, todos eles, foram vencedores do prestigiado Prêmio Jabuti. Órfãos do Eldorado é seu quarto livro publicado.

A novela continua as obras anteriores no sentido de que desvenda a vida, a história e os modos da região Norte, um pedaço do país desconhecido dos próprios brasileiros. É ali, num cenário rodeado de água por todos os lados, que se desenrola a vida de Arminto Cordovil, ao qual somente pode ser acrescido o epíteto de “filho de Amando Cordovil”. Perdido entre a exigência de seguir os negócios da família e os prazeres da quase irrestrita liberdade, Arminto usa os espaços de sua vida vazia para contar lendas e mitos amazônicos, contos de botos que engravidam virgens e mulheres que largam o mundo para viver numa cidade encantada, no fundo do rio. E a narrativa funde essas instâncias: a real, onde Arminto luta contra a figura do pai, que o subjuga em todos os sentidos, onde ele desenvolve sua relação ambígua com Florita, mulher que o criou, onde ele escuta conselhos do advogado Estiliano; e aquela outra, quase que sobrenatural, onde ele se perde na obsessão por uma órfã misteriosa.

Comparado a Cinzas do Norte ou a Dois Irmãos, obras anteriores de Hatoum, impressionantes por sua delicadeza, Órfãos do Eldorado parece diminuído. Talvez pelo formato bem mais conciso, que não permitiu ao autor desenvolver toda a sua habitual sutileza. O resultado é que livro não convence o quanto poderia, e não emociona. Bem escrito, mas sem alma, apóia-se na  nostalgia que permeia o olhar de Hatoum sobre sua região, sobre as lembranças de um tempo/lugar muito peculiar.

Talvez porque o personagem principal não chegue a criar empatia, o elemento mais fundamental da história seja a Água. É ela que fornece modo de vida à família Cordovil, que permite a fusão dos imigrantes estrangeiros e dos índios, é na água que Arminto deposita histórias de infância, esperanças e desassossegos de amor. Tudo sempre ocorre tendo a água por testemunha. Mas a água é fugidia, assim como as chances que Arminto deixa passar. Pode ter sido essa a chance que a obra deixou passar: a de unir a fluidez natural, mansa, das letras de Hatoum com sua capacidade de dialogar, partindo de um microcosmo, com os sentimentos mais universais.

: : TRECHO: :
“Inúteis, por quê?
Porque, se fores embora, não vais encontrar outra cidade para viver. Mesmo se encontrares, a tua cidade vai atrás de ti. Vais perambular pelas mesmas ruas até voltares para cá. Tua vida foi desperdiçada neste canto do mundo. E agora é tarde demais, nenhum barco vai te levar para outro lugar. Não há outro lugar.”

: : FICHA TÉCNICA : :
Órfãos do Eldorado
Milton Hatoum
Companhia das Letras
1a. edição, 2008
107 páginas

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Sobre o autor

2 Comentários

  1. Ane Rodrigues em

    Aline, percebe-se que o seu conhecimento em relação a literatura é bastante limitado, pois o quarto livro de Milton Hatoum em nada deixa a desejar em relação aos livros publicados anteriormente. A sua afirmação de que pelo fato do formato do livro ser mais consiso, não permitiu o autor desenvolver a sua “habitual sutileza” é muito suspeita, pois, não se pode medir um texto pela sua extensão, ou seja, quantidade nada tem a ver com qualidade.

    Minha opnião pessoal é que o livro Orfãos do Eldorado, não somente não fica a desejar em relação aos outros livros do Milton, como também os supera.

    Bjs

  2. Ana lúcia Oliveira em

    sou leitora de Milton Hatoum.e sou da mesma opiniao de Aline Rodrigues,em nada deixa a dever a novela orfãos do eldorado de hatoum,ao contrário ao debruçar-me sobre esta novela,li várias vezes e não satisfeita ainda,escrevi um artigo sobre a mesma como trabalho final de uma especialização.Faço votos que outros também leiam.
    bjs

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