Orgulho e preconceito e zumbis – Seth Grahame-Smith e Jane Austen

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Canibalismo no cânone

Quando o artista francês Marcel Duchamp, em 1919, desenhou um bigode e um cavanhaque numa reprodução barata da Mona Lisa (obra icônica de Leonardo da Vinci); ele estava abrindo caminho para uma tendência artística baseada na ironia como forma de recontextualizar o cânone. Passados quase 90 anos, esse mesmo princípio volta a ser aplicado sob o nome mashup. O terreno agora é o da literatura e o cânone em questão é o romance Orgulho e Preconceito da escritora inglesa Jane Austen, publicado pela primeira vez em 1813.

A história que se tornou um clássico da literatura pela sutileza da autora em revelar de maneira ácida as divisões e costumes da sociedade inglesa do início do século XIX ganha contornos de carnificina em Orgulho e Preconceito e Zumbis. O livro, assinado pelo desconhecido Seth Grahame-Smith e ironicamente pela própria Jane Austen, integra um projeto de paródias da editora americana Quirk Books que já tem planejado na sequência os títulos Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, em cima de outra obra da autora inglesa, e Android Karenina, desenvolvida a partir de Anna Karenina de Liev Tolstoi.

Nessa primeira brincadeira em torno de Orgulho e Preconceito, a angústia das cinco irmãs Bennet em encontrar um bom casamento se mistura com lutas marciais contra ninjas e mortos-vivos, que insistem em sair das tumbas e vagar pela Inglaterra em busca do sabor de cérebros humanos. Como a terra da rainha está tomada pelos moribundos, os hábitos de seus moradores já se adequaram ao risco constante de serem devorados pelas criaturas recusadas pelo inferno.

Um exemplo disso é o jogo Criptas e Ataúdes, que rivaliza com o carteado na preferência de passatempo noturno, carruagens carregadas por moribundos e mesmo caças esportivas a zumbis. Além do recato e dos bons modos para arranjar um marido, as moças de família também precisam ser preparadas nas artes mortais. Pelo menos nesse ponto, as cinco senhoritas Bennet se revelam bons partidos devido ao treinamento recebido na China e chamam a atenção dos amigos solteiros Sr. Bingley e Sr. Darcy.

Apesar da estranheza causada pela junção desses universos que envolvem o romance de costumes com zumbis, o livro sobrevive ao ímpeto da curiosidade e se revela uma leitura atraente. Menos pelo teor cômico do exercício de reinvenção do cânone e tom grotesco das cenas envolvendo os moribundos (em especial a que a Sra. Collins, contaminada pela praga, delicia-se com o próprio pus durante a refeição); do que pelas nuances da trama de desencontros da obra de Jane Austen.

Thiago Corrêa
lido em Abr. de 2010
escrito em 29.04.2010

: : TRECHO : :
“Mas, mal ela havia fechado os dedos em torno do cabo da adaga, um alarido de gritos encheu o salão, imediatamente seguido pelo estilhaçar de vidraças. Os não mencionáveis surgiram, invadindo o ambiente com seus movimentos desengonçados, embora ligeiros, e seus trajes fúnebres em farrapos. Alguns vestiam túnicas tão rasgadas que os deixavam escandalosamente expostos; outros tinham as vestes tão imundas que se poderia supor que fossem nada mais que lixo e sangue seco. Os corpos estavam em variados estados de putrefação; os que haviam falecido recentemente apresentavam uma coloração levemente esverdeada e a pele flácida, enquanto os que já estavam mortos havia muito mostravam-se cinzentos e quebradiços — tendo seus olhos e língua há muito se transformado em poeira, enquanto seus lábios, repuxados para trás, formavam um eterno sorriso de caveira.” (pp.13-14)

: : FICHA TÉCNICA : :
Orgulho e preconceito e zumbis
Seth Grahame-Smith e Jane Austen
Tradução: Luiz Antonio Aguiar
Intrínseca
1a. edição, 2010
320 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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