Paris é uma festa

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Tenho saudade de meu tempo de jovem adolescente quando lia sem entender nada os teóricos do Comunismo. Tenho saudade de Sandra, uma menina por quem estive apaixonado ali pelos meus 13 anos. Ela era linda, já tinha peitos – o que me rendia certa catarse solitária – e nutria por mim o desprezo característico que as meninas de 13 anos sentem pelos meninos da mesma idade. Sinto saudades de outras coisas que vivenciei e de pessoas que já não são as mesmas ou deixaram de existir. Mas também sinto saudades de lugares por onde nunca andei e de épocas que nunca vivi.

Uma dessas épocas é a década de 20 e um dos lugares – alguns já adivinharam – é a França. Paris, para ser exato. Tal experiência se repete todas as vezes que leio Paris é uma festa, do Ernest Hemingway. O testemunho que dá o autor é autobiográfico. O livro não é ficção, é memória e sem dúvida nenhuma se constitui na gênese de outro livro – este sim, de ficção – que eu leio com o mesmo deleite do primeiro. Todos já sabem: O Sol também se levanta. A atmosfera – ou a sensação que em mim provoca – que provém de Paris daqueles primeiros vinte anos do século passado, povoada de artistas, músicos, poetas e escritores, a maioria pobre, muito antes da fama, vivendo um período de formação, mas sem a rigidez que lhes proibisse o prazer de tomar vinho, uísque e o que mais lhes ajudasse a combater o frio das casas sem calefação. Um período de formação que também incluía frequentar – porque fazia parte do meio – o ateliê de pintores excêntricos que mais tarde se suicidariam de tão excêntricos, acompanhados quase sempre – antes de cortar os pulsos ou morrer de overdose – de mulheres, algumas de vida fácil, mas todas lindas e seduzidas por eles – os artistas – e suas visões de mundo encantadoras, muito embora pessimistas ou niilistas ao ponto de Gertrude Stein taxar aquela geração de perdida. Tal atmosfera, como eu dizia, tem o efeito de me embriagar como o vinho.

Ter vivido naquela época – a mim parece – é pertencer a um dos mais interessantes períodos da história, e é claro que quando digo isto estou ajudando a construir o mito. Mas quem começou foi Hemingway. Foi ele quem disse que era pobre e feliz. Os poetas neoclássicos nos falam da vida campestre e de homens simples e rudes e, por isso mesmo, felizes. Hemingway nos dá conta de homens urbanos, sofisticados, excêntricos e exigentes, porém felizes. Parece uma contradição de termos. Mas, mais do que isso, é a sua experiência. Ele era jovem, estava apaixonado e entusiasmado com sua carreira de escritor. A gente não pode esquecer que o livro foi escrito muitos anos depois, um ano antes de sua morte. Hemingway estava saudosista daquele tempo e por certo idealizou muito, assim como eu faço – muitos fazem – quando leem o livro e se deixam seduzir por ele.

Andar nas ruas de Paris, frequentar os cafés e quando não encontrar ninguém para conversar sobre o nosso mais novo projeto literário, sentar a uma mesa, e beber uma taça de vinho olhando para quem passa. Caminhar com eles, homens e mulheres – muitos dos quais morrerão na guerra – e despercebido do perigo que nos ronda, sentindo-se mesmo pleno de felicidade e desfrutando de uma inocência da qual sentiremos saudade mais tarde, imaginar personagens e poder traçar – um minuto antes do clímax alcoólico – alguns perfis de personagens.

Alguém sensato dirá que esta Paris não existe. Jamais existiu senão para Hemingway. Talvez. Não me interessa pensar assim. Só sei que todas as vezes que abro as páginas de Paris é uma festa sinto-me como se tivesse sido minha a experiência – e não a de Hemingway – de viver em Paris nos anos vinte, ao lado de minha esposa que me ama e me admira. Antes do fim da inocência. Mas não é apenas uma lembrança – e aqui me mostro mais poderoso do que o autor. Eu, o simples leitor – parece que ainda estou lá, sou o usurpador da experiência do outro, vivendo todos os dias aqueles dias felizes. Só preciso abrir as páginas. Durante o tempo da leitura dura em mim a sensação de eternidade.

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/05/nivaldo.jpg[/author_image] [author_info]Nivaldo Tenório

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O autor: Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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