Pawana – J.M.G. Le Clézio

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Sob a mira de predadores

No universo da literatura mundial o topo que um escritor pode chegar é vencer o Prêmio Nobel, mas pelo menos no Brasil isso não tem significado necessariamente uma confirmação de notoriedade e sucesso editorial. O vencedor de 2008, o francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, ainda continua engatinhando no processo de consquista dos leitores brasileiros. Pouco-a-pouco, porém, seu nome vai preenchendo as prateleiras das nossas livrarias, onde já era possível encontrar os títulos A quarentena (1997, Companhia das Letras), Peixe Dourado (2001, Companhia das Letras) e o de memórias O africano (Cosac Naify, 2007).

Quase um ano depois da decisão da Academia Sueca, aparece por aqui o infanto-juvenil ilustrado Pawana, que sai pela Cosac Naify com tradução de Leonardo Fróes. Nesse volume, questões inerentes à obra de Le Clézio retornam como que para justificar a sua escolha para esses tempos de Nobel, onde os critérios literários parecem ficar em segundo plano, atrás da biografia do autor e sua postura política. Nesse contexto politicamente correto, o francês representa o reconhecimento da Academia Sueca à problemática da imigração e as consequências dos equívocos da colonização. Nascido na França em 1940, Le Clézio mantém uma estreita relação com as Ilhas Maurício, terra natal do seu pai que no passado foi dominada pela Holanda, França e Inglaterra.

Essas marcas biográficas se traduzem na fixação do autor por temas presentes no livro, como a busca pelas origens, a relação conflitante entre pessoas de diferentes gerações e a tensão envolvendo a dominação de povos na colonização. Ainda que seja voltado para o público infanto-juvenil, Pawana (publicado originalmente em 1992) consegue lidar de maneira contundente com essas caraterísticas ao tratar da história de John, um marinheiro aposentado que relembra sua infância e a época em que embarcou no navio Léonore, comandado pelo capitão Charles Melville Scammmon.

A trama é narrada pela alternância das memórias desses dois personagens. John se encerrega de alimentar o livro com seu olhar poético, revelando fascínio pelos relatos ouvidos na ilha de Nanunteck sobre um lugar escondido no oceano onde as baleias têm seus filhotes. Scammon, por sua vez, dá tons dramáticos a essa busca, inserindo elementos de ganância e ameaça de revolta dos marinheiros.

Em meio às duas visões, Le Clézio mostra um mundo em que as relações humanas são movidas pela fome de riquezas materiais. Por trás dessa história aparentemente despretensiosa, que nos remete às narrativas de pirata e ao clássico Moby Dick de Herman Melville, o autor francês denuncia os abusos da época da colonização, como a escravidão e a destruição ambiental. Questões que ainda permanecem atuais, basta observamos o fracasso nas últimas discussões em torno do aquecimento global, justificado para não prejudicar os interesses comerciais das grandes potências.

Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2009
escrito em 24.12.2009
reescrito em 19.01.2010

: : TRECHO : :
“Depois os índios foram morrendo, um depois do outro, de doenças, de tantas bebedeiras, ou em brigas nas espeluncas de Boston e de Bedford. Morreram de frio na neve das sarjetas, morreram no mar perseguindo as pawanas gigantes, morreram de tuberculose nos asilos.” (p. 21).

: : FICHA TÉCNICA : :
Pawana
J.M.G. Le Clézio
Tradução: Leonardo Fróes
Ilustrações: Guazzelli
Cosac Naify
1a. edição, 2009
64 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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