A permanência de Nelson Rodrigues

0

Nelson Rodrigues permanece um autor essencial para o teatro brasileiro; peças escritas há 50 ou 60 anos ainda são encenadas por dramaturgos contemporâneos, buscando a adaptação de ideias intrigantes, sobre contradições morais e dilemas éticos, para novas plateias. Doroteia, dirigida por Antonio Cadengue, na montagem da Companhia Teatro de Seraphim, estreou na semana passada e permanece em cartaz durante este mês (sempre às 20h, das sextas aos domingos – e também nesta quinta) no Teatro Barreto Júnior (Pina).

A peça foi escrita por Nelson e dirigida por Zbigniew Ziembiński (que encenou, também, Vestido de noiva, em 1943, e Toda nudez será castigada, em 1965). Estreou em 1950, no Rio de Janeiro, e surpreende como em certo sentido permanece atual: o lugar obscuro da mulher na sociedade, a forma como a construção patriarcal pode interferir gravemente no perfil emocional e na formatação da identidade feminina, provocar deformações na constituição afetiva de pessoas comuns.

A peça é uma tragédia familiar, classificada por Nelson como uma “farsa irresponsável em três atos”. As mulheres de uma determinada família nascem com uma condição especial: não veem os homens, casam-se com a presença masculina que imaginam, e, durante a noite de núpcias, experimentam a Náusea, o sentimento de derrota absoluta que funciona como uma espécie sádica de ritual de passagem para uma existência de penitências.

As mulheres dessa família recebem o horror, tornam-se progressivamente mais feias e sentem um tipo estranho de orgulho na ausência de desejo. A força da ideia de Nelson – a náusea que surge após a união socialmente estável – parece enfraquecida apenas quando Cadengue opta pelo humor: a conversa trivial entre as mulheres mais velhas para debater quem, ao longo do tempo, conseguiu ficar ainda mais feia (como elogios); o humor banal da cena parece em desarranjo com a gravidade do conceito do espetáculo.

Doroteia (Roberto Brandão), diferente das mulheres de sua família (interpretadas por Carlos Lira, Manuel Carlos, Marinho Falcão, Mauro Monezi e Rudimar Constâncio – além da presença masculina de Rudimar Constâncio, que interpreta a fonte de desejo da protagonista), é linda e sedutora: seu vestido vermelho – em oposição aos trapos de suas primas – e suas curvas sugerem a volúpia do desejo, a possibilidade de sonho e amor, conceitos rejeitados por suas companheiras, que vivem numa casa sem paredes para que ninguém durma ou sonhe.

Esta adaptação, com figurino que sugere emoções secretas, camadas de panos que sugerem um sentimento progressivo de loucura, desejo, perda e negação, e cenário que abre caminhos de interpretações, com pilares insinuando a atmosfera voyeur de uma existência vigiada, parece eloquente demais para dizer o mínimo; uma ornamentação às vezes excessiva que avança pouco num tema instigante.

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

Comente!