PEsado – Wilfred Gadêlha

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

livro-pEsadoAutor: Wilfred Gadêlha (Goiana-PE, 1973). Jornalista, trabalha como editor do caderno Cidades do Jornal do Commercio. É o vocalista das bandas Cruor e Câmbio Negro HC.

Livro: Publicado em março de 2014, PEsado é fruto das pesquisas iniciadas em 2009 pelos pesquisadores de sociologia Amílcar Bezerra, Daniela Maria Ferreira e o franco-lusitano Jorge de la Barre, que também contaram com Gadêlha.

Tema e Enredo: PEsado mapeia mais de quatro décadas da cena metal em Pernambuco, abrangendo desde a formação das bandas, os discos, shows, lojas especializadas e a cobertura realizada por fanzines.

Forma: O livro divide-se em três partes: Espaço, Som e Imagem. A partir desses eixos, PEsado aborda os espaços de convivência dos metaleiros, o legado musical das bandas locais e a difusão de informações através de zines especializados.

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Batendo cabeça

Um aviso: esta crítica é escrita por alguém que está do lado de fora. Pelo menos no que diz respeito ao tema do metal. Ainda que já tenha ido a shows e, na adolescência, tenha gravado lá minhas fitas do Iron Maiden; confesso que nunca entendi bem o povo de preto que se amontoava nos bares do Recife Antigo para bater cabeça e agitar o cabelo ao som de gritos, urros, solos frenéticos de guitarra e muita porrada de bateria. Uma boa oportunidade para vencer essa distância é o livro PEsado: origem e consolidação do metal em Pernambuco, escrito pelo jornalista e metaleiro Wilfred Gadêlha, que hoje é o responsável pelos vocais das bandas Cruor e Câmbio Negro HC.

O livro é fruto de uma pesquisa iniciada lá em 2009 pelos pesquisadores de sociologia Amílcar Bezerra, Daniela Maria Ferreira e o franco-lusitano Jorge de la Barre, da qual Gadêlha foi convidado a participar, primeiro como entrevistado e depois de maneira mais efetiva. O resultado dessas pesquisas (Transformações – A cena metal no Recife pós-mangue, de 2011, e Além da capital: música pesada no interior de Pernambuco, de 2012) agora se consolida com PEsado no formato livro.

Em suas 352 páginas estão registradas quase cinco décadas da cena metal em Pernambuco, desde os anos 1970 até a época de grandes shows internacionais no Recife, que contou com Iron Maiden e Motörhead. Para dar conta dessa história, o grupo de pesquisadores colheu depoimentos de mais de 150 entrevistados, entre músicos como Max Cavaleira (ex-vocalista do Sepultura), Cannibal (Devotos), Lúcio Maia (Nação Zumbi); produtores e lojistas como Paulo André Pires (produtor do festival Abril Pro Rock) e João Marinho (produtor e dono da loja de discos Blackout) e jornalistas como José Teles (autor do livro Do frevo ao manguebeat), Alexandre Yuri e Ricardo Novelino.

 A partir dessa memória oral e relatos de fanzines, PEsado reconstrói em detalhes o surgimento e as várias fases do metal em Pernambuco. Uma história que começa num tempo em que a escassez de informação fazia com que as pessoas se reunissem numa loja escura da Boa Vista para ler notícias traduzidas pregadas na parede, passa pela importância da primeira edição do Rock In Rio para a disseminação do metal no país e por fatos curiosos como o primeiro show do Sepultura em Pernambuco (que em 1987 foram trazidos para tocar em Caruaru por um garoto de 14 anos, o hoje deputado federal Wolney Queiroz) e o formigueiro de gente que se transformou o antigo Dokas durante a dobradinha de shows em 2001 da Hanagorik e Os Cachorros.

 Apesar do seu conteúdo e valor histórico, o livro não segue uma ordem cronológica, a organização é temática, estruturada a partir de três eixos: Espaço, Som e Imagem. Na primeira parte, o autor investe nos espaços de convivência da cena metal, como casas de show, bares e lojas de discos.  É onde temos acesso a lugares perdidos na história do Recife, como a loja de Humberto (um quarto escuro na Boa Vista onde os clientes eram trancados dentro quando o proprietário precisava resolver alguma coisa na rua), a loja Mausoleum (que tinha um caixão como balcão), o Beco da Fome, o ainda existente Bar do Fogão e casas de shows como o Arteviva em Boa Viagem, o Dokas e o Bomber no Recife Antigo. Em paralelo ao fenômeno do metal, o registro também aponta para as mudanças ocorridas no comportamento das pessoas, as transformações no consumo da música e na dinâmica da cidade, com o processo de decadência do centro e a migração para a periferia.

 Na segunda parte, o foco é o legado musical das bandas. Nesse eixo, o livro funciona quase como um catálogo de bandas, com informações sobre shows, turnês, demos, EP’s, discos e formações. Para mim, que não sou metaleiro, essa é a parte mais problemática do livro. O preciosismo em detalhar o troca-troca constante de integrantes das bandas, inclusive de bandas de menor relevância, fez com que a leitura se tornasse cansativa. A sucessão de nomes de nomes de músicos e o abuso de redundância (com a repetição de informações, de referências dos personagens e do uso de depoimentos que apenas repetem as palavras do autor), acabam por travar a narrativa e tirar o foco da música, quase que relegando para o segundo plano as histórias de bastidores, as análises dos discos, as roubadas e improvisos dos grupos. Outro problema aqui é o envolvimento do autor com o metal. O que deveria ser um trunfo, dada à proximidade dele com a cena, ganha contornos esquisitos ao optar pela inserção de depoimentos “aspeados” dele próprio (p. 128).

 Ainda assim, vale ressaltar que, no meio de passagens relatoriais, a trajetória das principais bandas de metal em Pernambuco – como os Herdeiros de Lúcifer, o Decomposed God, o Cruor e o Hanagorik – estão bem registradas no livro, falando da origem delas, dos principais shows, das turnês e discos gravados. No eixo dedicado à música, outro ponto positivo é abordagem sobre a rixa criada entre os metaleiros com a ascensão do Maguebeat, com depoimentos de ambos os lados, numa pluralidade que permite enxergar o fato por diversas perspectivas. Rixa essa ainda viva, mas que já começa a dar sinais de cansaço com o surgimento de grupos como Terra Prima e Cangaço, que mistura forró com metal.

 E, por fim, o terceiro eixo fala sobre o movimento de fanzines especializados criados para suprir a ausência de informações e o desleixo da mídia tradicional com o metal, assumindo o papel de divulgar o trabalho das bandas e a agenda de shows. Nesse ponto, o livro também registra o esforço de repórteres dos grandes jornais, que – por um esforço mais pessoal do que editorial – abrem espaço para o metal.

 Apesar de alguns problemas, PEsado funciona como um registro relevante que mapeia a produção musical dos headbangers, o comportamento social e as transformações ocorridas na cidade. O que, considerando o descaso com a preservação da memória (ainda mais de guetos marginalizados como o do metal), já é um esforço enorme e que merece ser reverenciado por isso.

 Lido em mar./abr. de 2014

Escrito em 04.04.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/12/Foto-Thiago-Corrêa-Crédito-Ale-Ribeiro-horizontal.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa

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Currículo: Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Conheci Wilfred na cobertura do show do Iron Maiden em Sâo Paulo, em 2009. Recentemente o entrevistei sobre PEsado para o programa de rádio Café Colombo. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

PEsado: origem e consolidação do metal em Pernambuco

Wilfred Gadêlha

Editora do Autor

1ª Edição, 2014

352 páginas

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“O Sepultura pegou um ônibus rumo a Caruaru. Lá, chegando foram recepcionados pelos bangers locais na rodoviária. “Chegaram de manhã e eu fui recebê-los. Eu até me lembro que Paulo perguntou a mim quem era o tal de Wolney. Quando disse a ele que era eu, ele caiu numa cadeira, tinha tirou o óculos com um ar de que não estava acreditando. Eu era muito novo”, recorda o hoje deputado federal Wolney Queiroz. “Mas ficamos amigos na verdade, não tinha mais nada de produtor e banda. Entrou todo mundo numa Belina e saímos pra comer uma carne de sol e depois levar pro hotel”, conta o produtor do show, com 14 anos em 1987.”, (p. 269)

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Registro

Pesado é um importante registro da cena metal de Pernambuco, mas que também ajuda a construir um panorama da música no estado e do desenvolvimento da cultura alternativa.

Imagem

O livro reúne um bom acervo de imagens da cena metal em Pernambuco, são mais de 98 páginas com fotografias, capas de discos e cartazes de shows.

Erros

Revisão descuidada, deixou passar erros ortográficos e de digitação.

Redundância

Alguns depoimentos de entrevistados repetem o que o autor relatara anteriormente. E as sucessivas referências aos lugares, bandas e personagens tornam o texto repetitivo.

[/learn_more] [learn_more caption=”CURIOSIDADES” state=”close”]

Dúvida

Quando resolveram desenvolver a pesquisa sobre a música em Pernambuco, os pesquisadores ficaram em dúvida entre o estudo do metal e do brega.

Baterista

Além de ser o atual vocalista das bandas Cruor e Câmbio Negro HC, Wilfred Gadêlha também já tocou bateria na Cérbero, numa época em que era difícil recrutar bateristas para assumir as baquetas no metal.

Gosto musical

Apesar da rixa entre os headbangers e o manguebeat, o autor diz que é fã da Nação Zumbi, da Mundo Livre s/a, Mestre Ambrósio, Cascabulho e já revelou que escuta de Guilherme Arantes.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

José Teles, no Jornal do Commercio, em 10 de março de 2014

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/musica/noticia/2014/03/10/pesado-faz-jus-a-historia-do-metal-120829.php).

 “Mas PEsado não se limita a registrar quem fez ou faz HM em Pernambuco, historia também os grandes shows de metal no estado, com um espaço especial para a estreia do mineiro e iniciante Sepultura em Caruaru, trazido pelo hoje deputado Wolney Queiroz, na época com 14 anos de idade.”

Jamille Coelho, na Folha de Pernambuco, em 10 de março de 2014

(http://www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/cultura/noticias/arqs/2014/02/0091.html)

 “PEsado, apesar de não seguir uma cronologia, contextualiza e situa bem o leitor em cada fase da consolidação da cena heavy metal e seus subgêneros no Recife e no Interior. Relata os causos de quem teve a honra de experimentar cada episódio que contribuiu para a consagração do movimento e faz uma reflexão sobre os headbangers que encontraram no metal uma forma de se identificar com o mundo social”

AD Luna, no Diario de Pernambuco, em 11 de março de 2014

(http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2014/03/11/internas_viver,493285/livro-apresenta-historia-do-metal-em-pernambuco.shtml).

PEsado foi baseado no testemunho de mais de 150 músicos, produtores culturais, jornalistas, além de textos de jornais, fanzines, sites e na própria vivência do autor. A preocupação com aspectos históricos e sócio-econômicos, é algo que o torna relevante para quem se interessa pela formação e dinâmica de cenas musicais e não apenas para headbangers (fãs de metal).”

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Obras relacionadas

Heroína e rock’n’roll – Nikki Sixx; Mate-me por favor – Legs McNeil e Gillian McCainHibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi – Herom Vargas

Links relacionados

Entrevista de Wilfred Gadêlha ao Café Colombo

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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