Peter

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Começa mais um dia chuvoso na Rua Azulada. Peter olha para um lado e para o outro, com a cara ainda inchada de sono. Segunda-feira difícil essa, não é, Peter? Levanta, vai!

Ele se estica o máximo que pode e fecha a cortina, reduzindo um pouco a luminosidade. Relutante a despertar, deita de novo. Mas, Peter?!

A consciência aperta e Peter já não consegue mais dormir. Vencido, dirige-se ao banheiro. Sai de lá pronto, devidamente asseado, escovado e fardado para a labuta diária. Quanto orgulho, Peter!

Pega a capa, guarda-chuva, galocha, se empacota, abre a porta da rua e sai. Logo em seguida volta com seu jornal, seu leite e seu pão francês tradicionais de todas as manhãs. Levanta porta da garagem e entra no universo de marceneiro funerário, sua profissão desde os 23 anos de idade.

Abre o Jornal Implacável na sessão obituária quando percebe a chuva tornar-se mais generosa, entristecendo a cidade. Calma, Peter. Isso ainda não é o fim do mundo.

Entre um gole de leite e um pedaço de pão, marca com a mesma caneta vermelha seus prováveis clientes do dia. Esses com dinheiro suficiente para reservar um espaço no Cemitério Macário, que fica em um grande terreno por traz de sua casa. Peter nunca entendeu o porquê de esses mortos valerem tanto dinheiro. Mas ele entende que precisa de jornal, leite e pão em sua rotina. Por isso algumas vezes prefere não pensar muito e põe-se a produzir os caixões mais confortáveis da cidade de Cômoda. Ofício este que o tornou conhecido nas redondezas.

Pois bem, às primeiras encomendas do dia. Corre, Peter! O carteiro apressado as jogou no gramado e não mirou nem o local. Nenhuma compaixão por almas alheias. As cartas vão se afogando enquanto o incompetente carteiro pedala inconsequentemente, casa após casa.

Peter as resgata e seca habilmente. Ele sempre foi um exímio ressuscitador de papel – mais uma das qualidades despercebidas por seus pais, que de tanto descaso o tornou não só herdeiro de uma funerária, mas também seu gestor. Descansem em paz papai e mamãe.

Mas vamos, Peter! Coragem. O dia apenas começou.

Ele abre a primeira carta, única que lhe interessa, com o cuidado pragmático de seu pai e a delicadeza empenhada de sua mãe.

“Olá Peter,

Meu nome é Celina M. do Brás. Venho, por meio desta, solicitar o novo recinto de Gracinha M. do Brás, minha avó querida. Infelizmente não poderei comparecer ao enterro portanto, para me redimir, peço que o senhor não economize em esforços e construa o abrigo mais lindo que já passou por suas mãos.

Suas medidas são:

– 1,50m de altura

– 82kg (mais avantajados na região abdominal)

Inteirando, como já lhe disse não poderei comparecer ao enterro por motivos pessoais. Portanto peço por favor, se possível, que o senhor acompanhe o velório pois não confio em mais ninguém para essa função.Recebi ótimas indicações do seu trabalho e acredito que não haverá problemas se o senhor aceitar minha proposta. Não se preocupe, os seus honorários também serão contemplados por este serviço.

Envio junto à carta uma foto dela, para que lhe sirva de inspiração.

Atenciosamente,

Celina M. do Brás”

Peter olha o obituário. Está lá, marcado por um círculo de tinta vermelha ainda úmida:

Gracinha Moura do Brás, matriarca da tradicional família Brás – a mais influente do estado nos setores industrial e comercial.

Nascida: 12 de Agosto de 1908

Falecida: 13 de setembro de 2008

Velório às 16h e enterro às 18h, no cemitério Macário.

Ainda insistiu um mês após os 100 anos, a velha! Peter pensa na vida dura da mulher, sempre disputando filas de caviar e desfilando Louis Vuton nas colunas sociais. Que seu descanso seja pleno.

Enfim começa o trabalho. Suas mãos habilidosas executam precisamente os cortes na madeira. Seus gestos traduzem a experiência e o domínio do oficio de 30 anos. Como a procedência das solicitações não varia muito, suas fontes de inspiração são sempre o santinho do obituário e o histórico da coluna social. Daí então, já definida a forma a montar, segura firme trena e serrote.

Em três tempos conclui a obra que tanto encanta os seus olhos. Sempre que termina um caixão se aquieta um pouco imaginando seu destino: o trabalho de uma manhã inteira para um corpo gelado, duas horas de pranto e sete palmos de areia.

Peter se empacota de novo, ergue o caixão com cuidado, coloca-o no transporte de duas rodas que ele mesmo construiu. Quando abre a porta da garagem “Onde está a chuva?!” Conduz o caixão por através de um labirinto de poças. Quando finalmente alcança o carro funerário, deposita o caixão na mala. Toma a direção e São Pedro, de súbito, resolve afogar as mágoas mais uma vez.

Segue calamitoso percurso rumo ao necrotério, sempre conferindo as horas para que não atrase o evento. Guarda bem a senhora em seu novo e, a partir de então, eterno leito. Toma novamente a direção.

16h. Todos devidamente posicionados. A senhora produzida em seu trono horizontal e Peter de capa, galocha e guarda-chuva armado na entrada do velório, segurando bem os santinhos da falecida.

16:20… 16:25… 17h e nada ainda. Coitado de Peter, ainda no mesmo posto, dentes tremendo compulsivamente.

17:10… 17:15… 17:32 finalmente se vê ao longe duas almas abençoadas carregando uma coroa de flores. Peter ainda não tinha avaliado o quando ansiava pela chagada de tão amáveis desconhecidos.

“Moço, mandaram entregar isso aqui para uma tal de Gracinha M. do Brás. O senhor sabe de quem se trata?”

Peter aponta o olhar para o caixão na salinha do velório.

“Ah, patrão, meus pêsames. Então… o senhor mesmo pode assinar a entrega?”

“Vai logo, Beltrano! Isso aqui tá é pesado.” Disse o outro homem, que estava com as flores.

“Avexe não e vê se respeita o sentimento do senhor aqui.” “O senhor desculpe. A assinatura é nessa linha azul ai.”

Peter assina, recebe a coroa e se despede dos homens cordialmente. Eles seguem rumo a saída do cemitério, discutindo algo sobre futebol e a última cerveja.

Peter coloca cuidadosamente a coroa na lateral esquerda do caixão, próximo ao rosto da senhora, de frente para a entrada da salinha. Assim que se estabelece de novo, capa, galocha e guarda-chuva armado na entrada do velório, segurando bem os santinhos da falecida, o sino da capela bate as 18 horas. Ao fundo se escuta uma ladainha cristã de Ave Maria num latim rouco.

Um homem vestindo cinza empurrando um carrinho e um padre nanico e com uma bíblia aberta na mão chegam. Peter reestrutura sua máxima robre o destino do seu trabalho: o trabalho de uma manhã inteira para duas horas de ócio e quatro pessoas apenas. Cumprimentam-se.

O homem de cinza fecha o caixão e o transporta para fora.

Os quatro vão caminhando disciplinadamente enfileirados: o padre pregando seu sermão de absolvição, Dona Gracinha imóvel como deveria, carregada pelo homem de cinza e Peter tentando conciliar as mãos entre a coroa de flores e o guarda-chuva.

Cessam os passos. Os três encontram-se agora contemplando os sete palmos cavados enquanto a defunta aguarda sua sentença.

Última pá de areia derramada. Última benção concedida. Os dois homens acenam pêsames a Peter e vão embora.

“Aqui jaz em paz a gloriosa Dona Gracinha”

Peter sente orgulho do epitáfio que escolheu. Coloca a coroa de flores precisamente centralizada no túmulo, logo abaixo da lápide. Distancia-se, as custas de calças ensopadas e galochas pesadas de barro.

Já em casa, banho devidamente tomado, barriga devidamente forrada, Peter senta na cama e olha, através da janela de cortina entreaberta, a chuva que ameaça parar. Levanta-se, abre a cortina inteira e olha a rua. É, Peter, a vida continua. Quem sabe amanhã faça um pouco de sol?

Volta para a cama. Bebe um pouco do leite que deixou na mesinha de cabeceira, ao lado do jornal. Deita-se.

Mas, antes de dormir, dá uma última olhada na coluna social do dia e se pergunta, como em todas as noites, qual destes distintos lhe passará primeiro as medidas.

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Sobre o autor

Publicitária e designer por formação. Minha construção artística, visual, literária, ou o que seja, tem sido empírica, experimental e mantém-se em processo. Encontrar qualquer modelo ou filtrar relevâncias no meu histórico que justifique qualquer posição que eu ocupe é cada dia mais difícil, e tenho achado isso ótimo. Prefiro manter-me vasta.

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