Poemaceso – Terêza Tenório

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PRÓLOGO

Autora: Terêza Tenório nasceu no Recife, em 1949. É uma das expoente da chamada Geração 65. Tem oito livros publicados.

Livro: O volume reúne as reedições dos livros de poemas Parábola (1970), O círculo e a pirâmide (1976), Mandala (1980) e Noturno selvagem (1981), mais a coletânea inédita Poemaceso (1985).

Tema e enredo: Dois grandes, constantes e obsessivos ‘leitmotiven’ se estendem como se fossem o firmamento desse mundo simbólico: o Amor e a Morte. Não amor e morte vistos de uma perspectiva meramente física ou mesmo emocional, mas sentidos e interpretados pela autora como categorias ontologicamente transcendentais.

Forma: O volume é marcado pela diversidade, que ora aponta para certos traços da vanguarda visual e formalista, ora para a tradição temática, linguística e de consagradas formas fixas, como a do soneto.

CRÍTICA

‘Poesia até agora’. Assim poderia Terêza Tenório, drummondianamente, ter chamado a este seu Poemaceso. Porque o volume reúne, nas suas 226 páginas, os cinco livros de poemas publicados pela autora desde 1970: Parábola (1970), O círculo e a pirâmide (1976), Mandala (1980), Noturno selvagem (1981) e Poemaceso (1985). Portanto, quatro reedições e a publicação de uma coletânea inédita é o que este livro representa. Não vale menos por isso, pelo contrário. Oferece da autora um retrato poético de corpo inteiro através do qual se pode ver a unidade da sua lírica, apesar de quanto tem de diversidade, sobretudo temática e em alguns momentos também estrutural. Diversidade que ora aponta para certos traços da vanguarda visual e formalista, ora para a tradição temática, linguística e de consagradas formas fixas, como a do soneto, por exemplo. Para apoiar estas observações basta confrontarem-se, entre si, os poemas Retém eterna a vida (p. 199), Tem a lucidez do que é vivo (p. 219), Em época de Buñuel (p. 176), Cantiga (p. 56), Silêncio (p.44), ou ainda o poema XII de Noturno selvagem, este soneto de nítido recorte clássico:

“Não tenho Amor em minhas mãos o tempo.

Tampouco sou mais bela e afortunada.

Meu corpo dispersei pelas tabernas

e ao te ver a meus pés, como lamento.

Tu me falas de vida e sentimento

e eu te pergunto: Amor, por que tão tarde?

A velhice que habita minha carne

ardeu-me o coração e o pensamento

já não te flui, Amor, como seria

se desde há longo tempo me chegasses.

O acaso fez em séculos os dias.

Por isso, Amor, evita que te abrace.

Sou anjo decaído e solitário.

Tenho o signo da morte sobre a face” (p. 78).

Eros e Tanatos, o desconcerto do mundo, o irredimível e cruel fluir do tempo, o pecado e a consequente queda são temas clássicos encontrados neste e em muitos outros momentos líricos de Terêza Tenório que a eles associa, na unidade que é a da sua evolução estética, outros tão diversos quanto o da conquista espacial, com as suas naves, computadores e robôs; a guerra químico-nuclear, o Apocalipse, as sagas nórdicas, celtas e germânicas com os símbolos e as suas respectivas mitologias; o ocultismo, a alquimia, os mitos clássicos como Ulisses, Teseu ou Anfion… A unidade deste universo tão vasto é magicamente conseguida pela autora, o que, a julgar por tão caótica e díspar enumeração, parece uma tarefa impossível: dar a tão diversos componentes temáticos de uma obra poética um tratamento e um equilíbrio harmoniosos, tornando possível o seu mútuo convívio no mesmo espaço estético de um único volume de poemas sem que se verifiquem arestas em qualquer texto que porventura poderia parecer deslocado, tantas as diferenças temáticas, provavelmente em excesso, ferindo, a harmonia de conjunto. Terêza Tenório consegue esse extraordinário resultado, em primeiro lugar graças à sua competência estética e sensibilidade lírica, em segundo lugar porque sobre o seu amplo universo de motivos temáticos dois grandes, constantes e obsessivos ‘leitmotiven’ se estendem como se fossem o firmamento desse mundo simbólico: o Amor e a Morte. Não amor e morte vistos de uma perspectiva meramente física ou mesmo emocional, mas sentidos e interpretados pela autora como categorias ontologicamente transcendentais. São eles os fios visíveis e fortes com que se tecem as costuras que fazem dos conjuntos de poemas de Terêza Tenório obras harmoniosamente inteiras e sem excessos.

José Rodrigues de Paiva é professor de Letras da UFPE.

  • Colóquio/Letras, n.º 97, Lisboa, maio-jun. 1987, pp.132-133.

 

FICHA TÉCNICA

Poemaceso
Tereza Tenório
Philobiblion | Instituto Nacional do Livro
1ª edição, 1990
226 páginas

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Sobre o autor

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