Poesia, prosa e política na Mostra Sesc

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É possível relacionar a criação literária, em poesia ou prosa, com o pensamento político: a escrita como possibilidade de manifestações. Na programação de encerramento da 5ª edição da Mostra Sesc de Literatura Contemporânea, hoje, o escritor gaúcho Carlos Nejar e o pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire participam da mesa Poesia, prosa e política, às 19h30, no Teatro Arraial. Em seguida, Nejar lança seu novo livro: Matusalém de Flores (Boitempo Editorial, 216 páginas, R$ 43).

A palavra política sugere uma imagem imediata de ideologia e partido, mas a literatura de Marcelino e Nejar apresentam outras dimensões do termo, relacionadas a dramas e eventos comuns. “Eu creio ser mais político literariamente quando faço, a duras batalhas, um evento como a Balada Literária que vai, em novembro deste ano, para a nona edição. Eu, com a Balada, interfiro na geografia do meu bairro, da minha cidade. É uma atitude real, viva, concreta. Quando escrevo, sim, sei que eu me vingo ali, que grito, que solto a palavra. Mas o resultado não existe assim, tão claro. Até porque a literatura não é o terreno dos resultados. Não sei qual leitor vai pegar em armas depois de ter lido os meus contos. A vingança é silenciosa…”, reflete Marcelino.

Já Nejar ressalta a maneira como liberdade e cidadania integram sua noção de literatura política. “A relação entre a literatura e a política é a medida da liberdade e da cidadania. Porque o escritor antes de tudo é um cidadão, não aceitando qualquer desvio da liberdade humana. Nesse sentido a literatura é política na defesa da dignidade humana. Política para mim é a construção do aqueduto da vida em coletividade. É mais do que uma ideologia (e sentimos o crepúsculo delas) e mais do que um partido (infelizmente no País há tal mistura, que apenas mudam as ideias pelo nome). O meu Partido é o da Condição Humana. E assim foi criado Matusalém de Flores, uma espécie de D. Quixote contemporâneo”, sugere.

Um dos indícios de possível engajamento nna literatura de Marcelino está na maneira como o autor cria vozes para pessoas que não costumam ter força política: personagens que vivem à margem, ignorados pela lei. “Sempre me dizem isso: que eu dou voz aos que não têm. Não concordo nadinha”, ressalta o autor. “É como se o escritor ficasse em um pedestal, salvando o povo, apontando o dedo, resolvendo os problemas da humanidade. Se há alguém que recebe a voz sou eu. Todo mundo à minha volta me dá voz. Quero ter a sensibilidade de receber o chamado, de preparar os ouvidos e sentidos todos, sempre”, destaca.

MATUSALÉM

Em seu novo livro, Nejar revisa signos de narrativas bíblicas para contar histórias da cidade de Pedra das Flores e de seu próprio Matusalém, personagem diferente de seu homônimo bíblico, mas que enfrenta com propensão heroica situações adversas em Pedra das Flores, onde “o mar não acaba nem a terra principia”. “O que desejo que o leitor descubra deste livro é o universo maravilhoso de Matusalém de Flores, o conhecimento da alma humana e de seus abismos e o poder mágico e poderoso da palavra. Nós também somos palavra”, ressalta o autor.

“Noe Matusalém não é o bíblico, que é filho de Enoque, é um ser que inventei para durar com a palavra”, ressalta Carlos. “É um personagem épico, capaz de grandes feitos, um ser desmedido na força e na coragem, com acentos quixotescos. Não sou um ser religioso. Creio na Obra do Espírito de Deus, creio na Bíblia como palavra eterna. O livro tem sua vida própria através de protagonistas. Não é necessariamente o aprofundamento desse tema. Não busco a simplicidade, a simplicidade que me busca. Não pretendo ser claro, busco a claridade”, explica.

Além de romancista, Nejar é poeta, crítico literário e tradutor – ocupações que interferem em sua criação literária. “Tudo conflui e se completa”, opina Nejar. “O tradutor é sempre o habitante de uma casa mal assombrada que pertence a outro. O crítico nos ensina o rigor da palavra e a tradição. E minha geração precisava criar um espaço crítico, pois temos grandes criadores. Basta citar, no Recife, Marcus Accioly, poeta extraordinário, e os dois já falecidos César Leal e Ariano Suassuna. Sem esquecer nunca o grande João Cabral.

 

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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