Poesia vende?

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Em 2012 fui convidado para participar de um novo projeto editorial. A pauta era fazer uma análise da situação da poesia por um viés de mercado. Para dar conta da missão, juntei alguns dados de pesquisas e fui atrás de editores, livreiros, poetas e representantes do poder público. O novo projeto editorial nunca chegou a sair do papel, mas aqui está a matéria…

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2011 pelo Instituto Pró-Livro, mostra que a poesia caiu para o sétimo lugar entre os gêneros mais apreciados pelos brasileiros, ficando atrás da Bíblia, dos livros didáticos, romances, religiosos, de contos e da literatura infantil. No levantamento anterior, de 2007, a poesia ocupava a quarta colocação, o que significa uma perda de quase 10 milhões de leitores nesses quatro anos. Outro dado sobre a situação da poesia no país vem do Painel de Livros, pesquisa feita pelo grupo alemão GfK. Ela revela que do total de livros vendidos no Brasil, entre janeiro e maio de 2012, 61,1% foram de obras de não ficção, enquanto a fatia de ficção ficou com 22,9% e a de livros infanto-juvenis com 16%. Desses 22,9% de ficção, os livros de poesia foram responsáveis por apenas 1,8%.

Os números de público e desempenho comercial ajudam a traduzir o desprestígio da poesia no meio literário. “É um fenômeno natural, lá fora e aqui. Acho que nunca houve um poeta best-seller. Sempre foi um produto marginal, as livrarias em geral não aceitam livros de poesia, quando muito um Drummond”, analisa Jorge Viveiros de Castro, da carioca 7 Letras, uma das principais editoras de poesia do país. “Se for pensar numa visão estritamente comercial, você tira o time de campo e ninguém mais faz. Existe o negócio livro, o que a gente faz é tentar inserir a poesia, com muita criatividade, e torná-la minimamente viável”, explica Castro.

Por outro lado, os livreiros creditam o problema às editoras, apontando que a diferença de tratamento entre os livros de poesia já vem de quem as publica. “Não sei se é causa ou consequência, mas acho que os editores tem uma parcela de culpa. Um exemplo que lidamos no dia a dia é que recebemos releases mais elaborados de livros de prosa e de não ficção do que os de poesia, e isso acaba se refletindo no interesse dos leitores pelas obras”, observa Thiago Muller, gerente de produtos da Livraria Cultura.

Segundo Jorge Viveiros de Castro, a falta de interesse do público, e por consequência a resistência das livrarias em ofertar livros de poesia, reflete-se nas pequenas tiragens. “É raro ter um livro com mais de mil exemplares que esgote. Quando um livro de poesia vende 200 exemplares, isso já é um resultado expressivo e real”, avalia Castro. Em caso de autores mais conhecidos, porém, o cenário muda de figura. Para os títulos de poesia de Charles Bukowski, a 7 Letras produz tiragens de mil exemplares e já comemora uma reedição. Outro exemplo é o volume Poesia completa de Manoel de Barros, publicado pela LeYa em 2010, que já ultrapassou a marca das 25 mil cópias vendidas. Números impressionantes para a poesia, mas que acabam interferindo no processo de renovação de catálogos. “O difícil é para quem ainda não é um Drummond”, diz Castro. “Não tem editora que queira publicar poesia, a maioria só quer editar aquilo que já tem no catálogo”, corrobora Rodrigo Sushi, editor da pernambucana Paés.

Visto como um ponto fora da curva por ser a obra do estreante Daniel Lima, Poemas, publicado em 2011 pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), conseguiu um bom desempenho comercial, vendendo 900 dos 1.500 exemplares produzidos. “O caso de Daniel Lima é surpreendente. Quando a gente analisa seu caso, vemos que alguns fatores interferiram para isso. O livro conquistou um prêmio (Alphonsus Guimarães, da Biblioteca Nacional) e seu autor morreu pouco tempo depois”, analisa o gerente de produtos da Livraria Cultura.

Dada a importância dos prêmios para conferir visibilidade aos livros, a posição desconfortável da poesia na preferência dos leitores se reflete nas (ou é refletida pelas) principais premiações do país. Para se ter ideia, dos nove vencedores do Prêmio Portugal Telecom até agora, apenas a obra Macau de Paulo Henriques Britto é de poesia. No topo dos gêneros premiados está o romance, com seis títulos. No tradicional Jabuti, desde que foi instituído o prêmio de livro do ano na categoria ficção, em 1990, apenas três títulos de poesia foram eleitos. No placar, com ampla vantagem está o romance com 15 livros do ano, mais que o dobro da soma de todos os outros gêneros. Contudo, nem mesmo o mais notável prêmio literário parece ser capaz de mudar a situação da poesia. Vencedor da edição 2011 do Prêmio Nobel de Literatura, o poeta sueco Tomas Tranströmer ainda continua um ilustre desconhecido, sem nenhuma obra traduzida para o Brasil.

As editoras, por sua vez, procuram superar as dificuldades dourando a poesia com edições diferenciadas. A 7 Letras investe nas novas possibilidades tecnológicas para diversificar o seu produto, que são vendidos tanto na versão impressa, como em audiolivro (onde os poetas recitam suas obras) ou e-book. “A poesia se presta bem aos novos meios. Por ser rápida, ela circula bem pela internet”, avalia Castro, “hoje, o leitor não depende da cadeia comercial para achar nossos títulos, vai direto ao nosso site”.

Já a Paés, aposta em projetos gráficos arrojados. “Faz parte da nossa identidade. A gente acredita que livro é algo para se ter, então ele precisa ser bem impresso, bem cuidado. É preciso que ele faça a diferença na compra do livro para poder se diferenciar da concorrência”, diz Rodrigo Sushi. Na mesma linha segue a Cepe, que tem investido no requinte e na análise crítica para emplacar sua coleção de poesia. “A coleção tem prefácios encomendados a especialistas, capa dura e sobrecapa reproduzindo a obra de um artista plástico de Pernambuco que ‘traduza’ o conteúdo do livro”, explica o superintendente de produção editorial da Cepe, Marco Polo Guimarães.

Outra saída vista no mercado editorial segue a direção oposta: edições mais simples e, consequentemente, mais baratas. É o caso da Livrinho de Papel Finíssimo, que nasceu como um projeto mais ligado às artes visuais, voltando-se para a produção de obras gráficas, mas que hoje encontra sua maior demanda na poesia. “Em média, duas ou três pessoas por semana nos procuram em busca de informações de como publicar um livro de poesia”, contabiliza Sabrina Carvalho, editora e produtora da Livrinho. Com experiência nas duas frentes – com o artesanal Baba de Moço, publicado pela Livrinho, e com a bem cuidada edição de Tríade, contemplado pelos recursos do Funcultura; o poeta Raimundo de Moraes não tem dúvidas por qual caminho seguir divulgando seus versos. Após ver a tiragem de 400 exemplares de Baba de Moço se esgotar ao preço de R$ 5, ele pretende lançar uma segunda edição até o fim do ano. “Tríade ficou lindo, mas não circulou. Enquanto isso, a coisa funciona com edições mais simples e baratas”, compara Moraes.

E mesmo no campo das editoras artesanais, vender poesia requer criatividade e certos cuidados. “Além dos amigos e da família, os autores acabam sem muitas opções de distribuição. Por isso colocamos o ISBN, que abre as portas para as livrarias”, observa Sabrina. Já o selo Moinhos de Vento aposta na estratégia de promover lançamentos coletivos. “Quem aparece para comprar o livro de contos também acaba comprando o de poesia. Um gênero ajuda o outro”, revela o poeta e editor Fábio Andrade.

“Se pensarmos a literatura numa lógica de supermercado, você vai encontrar um corredor inteiro de feijão e macarrão porque vendem mais, mas sempre vai existir uma prateleira para o picles”, compara o poeta Wellington de Melo, que desde fevereiro de 2011 responde como coordenador de literatura da Secretaria de Cultura de Pernambuco. Diante desse cenário desfavorável, Wellington de Melo explica que o papel do governo não é exatamente interferir na lógica de mercado, mas contribuir para a difusão de uma linguagem estética. “O que a gente tem feito é tentar valorizar a poesia para que o público passe a se interessar, a partir de eventos que lhe deem visibilidade”, aponta ele, referindo-se a ações como o Festival Internacional de Poesia, cuja primeira edição aconteceu em junho deste ano. Outro ato em prol da poesia foi a criação de uma linha específica para os recitais de poesia na lei de incentivo do Funcultura. “A poesia movimenta uma cadeia mediadora e criativa para fazer recitais, o livro é só a ponta do iceberg”, justifica Wellington.

“O livro não é mais uma fonte de sobrevivência, mas ele rende apresentações, palestras e oficinas. A poesia está me dando a oportunidade de viver com o que eu gosto e sei fazer, sem precisar de um emprego careta”, atesta Miró, que lançou novo livro em setembro. Outra que vem sentindo essa diferença de aceitação entre a poesia na forma oral e escrita é a escritora Silvana Menezes. Se por um lado ela tem sofrido com o encalhe do livro de poemas Vire a página (lançado pela Paés em 2010 com tiragem de mil cópias, das quais cerca de 300 permanecem em sua casa), ela mantém sua obra circulando através dos recitais e apresentações com o grupo Vozes Femininas. “De venda de livros não dá pra viver, mas de recitais sim, ganho até melhor do que com meu trabalho como educadora com carteira assinada”, compara a poetisa. No entanto, Silvana pondera: “O lado negativo disso é que, quando você entra nessa onda de recitais, você não está produzindo, escrevendo. A gente entra numa roda viva e a escrita fica em segundo plano”.

Escrito em 17 de setembro de 2012

 

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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