Portáteis (parte final)

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IV. Língua de sogra

Ele tinha cheiro de azul e gosto de tarde. Diariamente, antes da noite se debruçar, ela ia lá fora, no quintal da casa, alimentar-se de laranjas e rosas. Dentro em pouco ele a chamaria para lhe fazer a janta. Como se adiantasse… – pouco sabia de ovos mexidos, macarrões e congelados. Provavelmente estava atrás era do cheirinho por trás da orelha e umas palavras suspiradas com cores de alvoroço. Abriam uma garrafa de vinho; alguns beliscos em queijos e pães. Poucas vezes deitavam na rede, inevitavelmente acabavam no chão. Adormeciam enroscados, guardados pelo olhar de um gato franzino de nome Chico – morava num porta-retratos dado pela mãe dele. Para a velha, o gato era mais da família do que ela. Sempre que dava, a velha levava o bichano para as solenidades; ela, fazia questão de não. Uma vez chegou a ir num jantar na casa de uma tia – desde que não houvesse mãos dadas. Formatura, batizado, missa de sétimo dia e dias ensolarados, não podia. A beleza e inteligência dela haviam se esvaído, depois de se conhecerem, nuns dois dias… Desde então, animava-se por apenas aturar aquele cheiro de mofo quando aparecia para almoçar, dia-sim-dia-não, fingindo interessar-se pelas coisas do casal. Quando ele se distraía, a velha ignorava a presença dela e ia delegar infortúnios, ou contar piadas mendigas para a empregada na cozinha apegada ao radinho que tocava sua trilha sonora diária. Realmente, a comovia aquela angústia a que ele chamava: vida. Com a mão direita desenhava, para dois, sonhos coloridos com lápis aquareláveis. Com a outra, carvão, e rabiscava por cima. Tudo nele era tão cinza. Ele a beijava dizendo não. Certa vez chegou a ir embora de mãos dadas com outra. Mas deixou para trás seu rastro – feito de lágrimas. Naquela época não sabia ao certo o que esperar: que as lágrimas secassem; ou, que ele tivesse esquecido o caminho de casa. Porque as voltas sempre foram tão bonitas  quanto desastrosas. Uma manhã, sem mais, ela anoiteceu a alma e desistiu da paisagem. Aborreceu-se da boa vontade da velha (por lhe deixar viver com a família nos dias ordinários) e de ter o Chico por sentinela. Sentia falta do azul (é fato). Mas, quanto a ela, ainda importavam os laranjas e rosas em fatias deliciosas que podia comer com seus olhos na varanda de sua nova casa – sem fotografias de gatos esmilinguidos tidos por gente, nem velha que sorri dentes. Ele e seu gosto de tarde – mesmo quando antes.

V. Domingão

– Pai, dá-qui o radiozinho que eu comprei novas pilhas;

Em cinco minutos,

Naquela época tudo que era desimportante carregávamos no bolso. Como aquela carta que insistia em levar comigo. Jamais fui amado por ela. Mas por vaidade trazia junto a mim aquela resiliência de um sim.

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