Portáteis (primeira parte)

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I. Bom dia, Brasil

Naquela época viver era essencialmente bobo. O exercício da desmemória aliado ao desrecurso do tempo ajudava a consciência a não se importar com algo mais que fosse além do hoje. As construções amorosas, provavelmente eram o que se tinha de melhor a fazer. Investir-se numa relação imaginária, era, talvez, a maior das aventuras. As relações de afeto eram das mais engraçadas. Refletiam o momento em que a política tinha-se tornado a maior das grandes piadas. Comemorava-se a primeira mulher na presidência da república, tanto quanto o primeiro palhaço analfabeto no congresso. Tudo era demais. Ficava difícil discutir qualquer coisa seriamente que não fosse futebol. Diante da fragilidade dos argumentos, a pilhéria tomava lugar. Tomar partido durante as campanhas eleitorais era contribuir para que o candidato da oposição fosse mais degradado que o seu próprio. Futebol não, unânime a urgência de trocar de técnico da seleção nacional. As grandes palavras já não eram democracia, justiça, liberdade; mas, no fim do dia, os vestígios dessas no seus de, com e para. Ainda se fazia pouco caso da utopia embora o despotismo naquele momento houvesse caído depois de dezenas de anos como lastro nas terras do outro lado do oceano.

II. Dia dos namorados

Uma lembrança lhe era recorrente: acordavam com o galo cantando, sem saberem onde. Ela quase nunca flertava com a preguiça, corria para o banho. Na tentativa, inútil, de fugir dos hasteamentos diurnos de bandeiras ideológicas. Solene, ele ia escovar os dentes. E ela conseguiria sair dali ilesa, se não fosse pelos seus surtos musicais. Comemorando os dias em que havia água morna, livrava-se da espuma do corpo cantarolando um brega de conteúdo misógino – aprendera junto ao radiozinho, quando não ouvia futebol, num desses seus estados de transe. Ele nem se dava ao trabalho de tirar a pasta dos dentes, e já questionava o descrédito dela ao feminismo. Ela, lá, mesmo na ausência de seus botões, ria-se imaginando que o antimachismo dele era só para justificar os itens demasiadamente coloridos de seu guarda-roupa. Deixava o chuveiro, e ele resmungando, para atender o telefone: seu pai, saudoso, às sete da manhã, falando em tomar cervejas logo mais no mercado público no centro da cidade. Ia para o bendito mercado animada. Porque conseguiria tomar suas cervejas sem aquela sociologia para azucrinar. Sua dúvida era saber se fazia bem em o deixar sozinho, em casa, engendrando argumentos para, quem sabe um dia, convencer-lhe de queimar um sutiã.

Passadas as rememorações, as palavras se acumulavam debaixo da pele. Retesas. Assim como a miríade de sentimentos que não sabiam justificar. Ora amor, ora raiva, ora nada… Daquele nada doído, que nunca está esvaziado de fato. Em princípio, se deixou levar pela responsabilidade do tempo. Desse curandeiro que tanto se fala. Mas se era para confiar de todo nele, teria matado seu sentir de inanição. A presença dele era como um eco, que se escondia em outro eco e assim não se desvelava, nunca. Como se o que lhe fosse permitido saber dele estivesse por sua conta, por fantasia, e jamais realidade. O vazio é o produtor de eco? Como justificar a presença no vazio? Imaginou que deveria ser o mesmo que o ronco que anuncia a fome – que só se manifesta em tempos e tempos, mas está sempre lá desejando… Às vezes, batia-lhe uma sensação de impotência, como se a vida fosse capaz de se conduzir à despeito da vontade. Comer, domar-se, dormir… Acordar acontecia depois: e só em lapsos de tempo bastantes curtos: a consciência de si e do mundo e do outro. E que outro? O outro muda de cara, e de cheiro, e de vícios, mas quase sempre tem o mesmo significado: medo e abrigo. Explicadas as relações de poucos meses, ou poucos dias, ou… só está ali o suficiente para não amar, mas doer aquela presença eternamente… dilatando o que ficou, querendo fazê-lo ter uma cara, um motivo, uma palavra mal falada. E não tem… saiu do banho, recontou as rugas, jurou que se cuidaria dali em diante, até a porta fechar atrás de si e o mundo que acontece fora sufocar seu monólogo (que nunca é retomado no mesmo ponto; mas, um ponto para o futuro, ou um que existiu muito atrás…). viciosa essa ventura do desequilíbrio: falta-um-pedaço-falta-nada em seu ócio inventivo. Tem dias que passa mais de 48 horas convivendo com a cama desforrada; de um sono constante, entrecortado com leituras díspares: literatura, manuais diversos, dicionários, mágoas… Percebe que um lado de si fora dormente. Impedido de fazer-lhe parir toda sorte de desejos, vontades, sonhos. E o outro lado se demonstra infeliz transitando entre o agradar e se deixar seduzir.

Foi no meio desse seu quase-estar que eu apareci. Como uma aparição, uma ilusão completamente desnecessária.

 

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