Portáteis (segunda parte)

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III. Brasília

No radiozinho à pilha que trazia na mão, a notícia de um programa de aceleração de crescimento para o país.  Na cabeça, o completo descaso àquele contexto. Nos últimos seis anos, havia-se cansado de acompanhar de perto os percalços do presidente comunista celebrado por viabilizar o programa econômico idealizado pelo antigo presidente neoliberal. Não via sentido em gastar sua energia em desacreditar aquela piada se feita verdade de tanto que foi contada. O excesso de barulho de buzinas era concreto demais para pensar em Crescimento. As ruas abarrotadas. Sem saúde. Quem atreveria dedicar-se a discutir sobre a diferença entre esse parâmetro e de Desenvolvimento? Assim, era quase sempre irresistível reinventar a presença dela naqueles dias em que o frio lhe assobiava solidão. Por entre as superquadras, a cada meio quilômetro, ele recontava a esperança de encontrá-la na próxima esquina: num bar, praça, café ou janela escondida do sexto andar de algum daqueles prédios assépticos. Ofegante, nem sempre pela secura do ar, ele transitava infante por lugares que julgava familiar – e havia nada de familiar naquela cidade com o resto do país senão a velha vontade de ter um lugar ao sol. E nesse sentido, é o melhor sol que se poderia desejar, porque este quando se avermelhava e era acolhido pelas águas do laguinho do parque, só queria saber de amor, e começava a pretender da vida muito pouco… Ora veja, que miséria dele pensar em amor. Lembrou o dia que a conheceu: até então não sabia que o céu sabia se avermelhar daquele jeito, como quem seduz, sem querer, querendo esconder aquilo que sente. Só mesmo no silêncio acolhedor de uma cidadezinha rasteira – onde o espaço e o tempo são quase preguiçosos em suas horizontalidades – é que lhe foi possível ouvir aquele esboço de sentimento que respirava baixinho, pacato, despretensioso e que tem medo de se perder no caminho. Na possibilidade da vida que lhe desacelerava, todo sentimento queria ser amor quando se deparou naquele sorriso, hoje nele permanentemente ancorado por aqueles castanhos docemente reluzentes. Pela primeira vez o seu desejo não era castigo, mas oração. Vai ver que por isso mesmo, sem se dar conta, meio devoto, o corpo dele criou uma liturgia. Teimava em pesar nos mesmos lugares onde já ela pesara: sofá, rede, chão. Por certo, seria um quase-morrer aquela inteireza dela por cima. Pensou em ter um beijo, mas na calma do que sentia, não poderia ser roubado, mas instituído. E sendo o seu sentir sozinho que fosse assim: azul e casto.

IV. Roda de samba

Um dia confessou que não saberia dizer quem teria papo mais desgraçado, ele: assistente social trovador de botequim; ou seu amante: sociólogo contador de história em mesa de bar. Aos dois deveria lhes parecer menos contundente aquela sua atuação que só propunha pensar o pensar por entre as  vírgulas publicadas nas revistas multicoloridas das artes visuais. Ela até achava justo discutir sobre amor, fome, mundo – mesmo em momentos inoportunos: cama, mesa, banho. O porém era que os discursos de minorias não a comoviam, embora entendesse a urgência de transformações verticais. Os problemas dessas falas: as buscas por coisas tão específicas, ao seu ver, recaíam, no fim das contas, em questões mais imorais: a mulher branca de classe média na luta pelo mesmo salário do homem branco pouco se importando da mulher negra – essa que procurasse seus pares de cor para se emancipar! Quem penavam mesmo eram as amarelas: sem identidade, sem par, sem alguém que as percebessem… Daí o amante lhe vinha falar dos gays, a cada dia, mais coloridos; e ele dos animais, que putaquepariu,  pelo menos esses os poderiam servir na cadeia alimentar! Não sabia por que para viver tinha-se que carregar uma bandeira. Nas mãos dela, só a do querido time de futebol, que lhe era condição tão estúpida como qualquer outra: religião, partido político, o modo do velho abrir de pernas. Certo dia, encarecidamente pediu que, quando fossem ao bar, a deixasse só beber sua cerveja, porque o mundo, não iriam conseguir mudar naquele muito falar. Ademais, no dia seguinte haveria samba: teria branco, preto, amarelo, homem, mulher, azul: tudo junto. Coisa melhor, porém, ele faria se tocasse o pandeiro e lhe beijasse a boca. Ela havia comprado uma saia nova.

 

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