Prova dos nove – Álvaro Filho

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Era professor de matemática. E sempre teve uma vida calculada. Acordava todo dia pontualmente no mesmo horário, um minuto antes do programado no rádio-relógio, que já contabilizava mais de uma década de frustradas tentativas em ser o primeiro a despertar naquela casa. Na hora em que o bip do aparelho soava num crescendo, o professor já estava com os olhos abertos, em pleno espreguiçar, esperando apenas que o metabolismo terminasse de executar os cíclicos espasmos em seu intestino, que culminariam religiosamente, no mesmo minuto e segundo, com um desejado alívio de suas necessidades, trancado na suíte do quarto de casal.

No café-da-manhã, sentava no mesmo lugar da mesa, a noventa graus do filho, a filha no vértice oposto do triângulo, ligada ao olhar paterno por uma hipotenusa imaginária. Vez ou outra, lembrava-se do dia em que ele mesmo fez as contas para saber a probabilidade maior de gerar durante a relação sexual um menino e uma menina, sem admitir margens de erro. À direita, a esposa, a mão segurando a dele, os braços de ambos como retas perpendiculares. Uma geometria familiar que se repetia, sem variações, garantindo a simetria não só das formas, mas das rotinas e, consequentemente, da vida.

Uma vida cujo três quartos do tempo era em sala de aula. Uma fração que não subtraia a alegria em nada, pelo contrário, multiplicava a estima e elevava ao cubo a sensação que cumpria não uma vocação, mas uma missão. Em frente ao quadro, calculava a pressão exata que a mão exercia no giz para que esse não se partisse no atrito com a superfície dura da lousa. Destreza que exigia ajustes de cálculos frequentes, readaptando a força ao comprimento cada vez menor do bastãozinho de cal, até que esse desaparecesse por completo, restando apenas o pó entre os dedos.

A sineta também se mostrava inútil para indicar o fim da aula. O cronômetro interno na cabeça do professor era mais rápido e, dois minutos antes, a classe já havia sido dispensada. Tempo suficiente para apagar o quadro, repleto, não sem antes se permitir alguns segundos de contemplação do trabalho: uma sequência de números, entrecortada por mais, menos, iguais, parênteses, aspas, colchetes, raízes-quadradas e outras infinidades de símbolos. Uma parede pintada por hieróglifos que poucos decifrariam, e pior, muitos ignorariam, como se fosse possível viver sem perceber que a matemática era a ciência capaz de explicar a origem de tudo.

Geralmente, era o último a deixar a escola e seguir para casa, cumprindo o mesmo trajeto, chacoalhando na cadeira 23 ou 29 do ônibus, que podia ser o 239 ou o 293, pois todos, tanto o assento quanto os coletivos, eram números-primos, os favoritos dele. Mas naquela noite, a rotina ia ser quebrada e o professor de matemática iria se reunir com a família em um restaurante no Centro. Afinal, hoje completava 50 anos. Ele bem que havia relutado, achava uma bobagem isso de aniversário e, além do mais, o número 50 não tinha nada de especial. Nem primo era.

O restaurante era novo e como tal, movimentado. A esposa havia reservado uma mesa, mais afastada, longe do burburinho, pois conhecia o marido. Apesar da agitação, o professor de matemática foi se desarmando, se deixando levar pela conversa fiada. Nem se queixou de o cardápio não ter os pratos favoritos. Incentivado pela família, pediu algo diferente, extravagante até, mas aprovou o sabor, assim como se permitiu, afinal, primo ou não, era o seu aniversário de número 50, uma taça ou duas de vinho. No fim da noite, estava rindo, feliz, como se soubesse de cór a raiz quadrada de 3.258.

Em um determinado momento, levantou-se para ir ao banheiro. Cruzou lentamente entre os presentes, até achar o caminho do toalete, na parte de trás do estabelecimento. Era um corredor estreito, na penumbra, iluminado fracamente por uma luz vermelha. Quando estava alcançando a porta com um senhor de cartola desenhado na frente, a do lado, com uma senhora de saia estampada, se abriu. Era uma jovem, que saiu tão apressada que acabou esbarrando nele. Sem se importar com o incidente que havia provocado, ela apenas o encarou, e numa fração de segundos, o beijou. Na boca. Um beijo úmido e quente.

O professor de matemática voltou à mesa e não comentou sobre o ocorrido. Passou o resto da noite alheio, olhando para os lados, tentando identificar a moça entre os presentes. Em vão. Distraído, errou o cálculo na hora da conta. Culpou a taça ou duas de vinho. Já em casa, demorou a dormir, o beijo úmido e quente ainda boca. Levantou-se de madrugada para ir correndo ao banheiro, o intestino funcionando fora de hora. Voltou exausto e suado, maldizendo a comida extravagante. Praticamente desmaiou. E só acordou no outro dia porque o rádio-relógio, pela primeira vez, despertou antes que ele.

O beijo foi a variável que mexeu na equação, a prova dos noves que a vida pode ter um resultado inexato. Desde então, se atrasava na volta para casa, inventando desculpas para a esposa, quando na verdade havia trocado o 239 e 293 por outro ônibus, em direção ao Centro, em busca daquela mulher e de seu beijo úmido e quente. Até que um dia, na sala de aula, os alunos testemunharam incrédulos o professor de matemática passar longos minutos estático em frente ao quadro, a mão suspensa segurando o giz, sem saber ao certo o resultado de dois mais dois.

Álvaro Filho nasceu em Recife-PE em 1973. É jornalista e escritor, autor de quatro livros, entre eles o romance policial Jornalismo para Iniciantes. Seu mais recente trabalho foi O Diário de Viagem do Sr. A., um “livro” escrito em tempo real, durante 21 dias, integralmente em iPhone e publicado através de posts no Facebook.

 

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