A rasteira da Perna Cabeluda – André Balaio, Téo Pinheiro

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PRÓLOGO

Autores: André Balaio é músico, escritor, roteirista de quadrinhos e um dos editores pelo site O Recife Assombrado.

Téo Pinheiro é desenhista, arte-finalista e colorista. Em 2007, venceu o prêmio de melhor ilustrador pela capa que fez para a revista Prismarte.

Livro: A rasteira da Perna Cabeluda dá continuidade ao projeto de trabalhar o tema do sobrenatural em Recife na arte sequencial dos quadrinhos, como já havia sido feita no volume Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado, onde a dupla trabalhara junto nas histórias O homem que ria e Olhos vermelhos.

Tema e Enredo: Jornalista ambicioso decide resgatar o mito da Perna Cabeluda como uma forma de aumentar as vendas do jornal. As notícias, no entanto, servem de inspiração para que um adolescente se vingue dos valentões da escola.

Forma: A narrativa em quadrinhos explora o gênero do horror, inserindo o sobrenatural no contexto realista da paisagem do Recife.

CRÍTICA

Pegadas e tropeços da Perna Cabeluda

Recife é uma cidade que parece ter gosto peculiar para o boato. Com o histórico de mistura entre a ficção e o real provocado pelo folhetim A emparedada da Rua Nova e do pânico coletivo causados pelos falsos rumores sobre o estouro da represa de Tapacurá, em 1975; não chega a ser difícil entender como mentiras e superstições ganharam projeção no terreno fértil da imaginação recifense. Apesar dos transtornos causados na época, ao menos os boatos quase sempre deixam boas histórias.

Um exemplo é a lenda urbana da Perna Cabeluda, que apareceu nos anos 1970 e tem sua criação reivindicada pelo escritor e jornalista Raimundo Carrero. Após ser divulgada pelas rádios da época, o medo se espalhou, rendendo uma série de relatos de pisões, chutes e rasteiras de uma misteriosa perna sem corpo que permitiram a entrada, de sola, da Perna Cabeluda no imaginário popular do Recife.

O personagem (ou parte dele) se popularizou, virou tema de cordéis, troça e marchinha de Carnaval, documentário, apareceu em músicas do Manguebeat e agora chega aos quadrinhos, com o lançamento do livro A rasteira da Perna Cabeluda. Com roteiro de André Balaio e ilustrações de Téo Pinheiro, esse é o terceiro trabalho conjunto da dupla, que já trabalhara junto nas histórias O homem que ria e Olhos vermelhos, reunidas no volume Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado.

Nessa nova empreitada, eles trazem a Perna Cabeluda para os dias atuais – mais precisamente o ano de 2014. Um deslocamento temporal que é engenhosamente construído na história, a partir do ambicioso jornalista Jonas. Como uma forma de alavancar as vendas do jornal Gazeta do Recife, ele decide resgatar a Perna Cabeluda, proporcionando uma interessante releitura sobre a origem do personagem pelo viés do boato.

Mas, se na época a Perna Cabeluda trazia conotações políticas, servindo de vazão à censura; seu retorno é viabilizado pelo oportunismo e ambição de um jornalista que rompe os limites éticos da profissão para se dar bem. Algo que ele consegue com a participação do estudante Sérgio, que, inspirado pelas matérias da Gazeta do Recife, resolve usar a Perna Cabeluda para se vingar dos valentões da escola, do professor de matemática e mesmo se divertir atacando os transeuntes.

Assim, a série de ataques combinados permite que André Balaio e Téo Pinheiro explorem bem uma das principais marcas do projeto O Recife Assombrado. Paisagens do Recife – como o Clube Internacional, o Instituto Estadual Jayme Griz, o Parque 13 de Maio, o Bar Central, o Marco Zero e o calçadão de Boa Viagem – transformam-se em cenário para a ficção, assumindo o papel de ampliar nossa relação com o espaço urbano.

No entanto, o esforço criativo da dupla, vai se enfraquecendo a cada página, tanto no plano visual como no narrativo. No aspecto imagético, os dois primeiros quadros da página 18 evidenciam uma certa preguiça do ilustrador, mantendo os figurantes do fundo estáticos num contraste com o movimento das personagens do primeiro plano.

Outro vacilo, tanto visual como narrativo, está no uso dos jornais como recurso intertextual para mostrar a projeção da Perna Cabeluda. A intenção é boa e permitiu à dupla fazer um interessante link com o site O Recife Assombrado e com a história Olhos vermelhos (embora a distância cronológica das notícias de um crime ocorrido em 1977 e o ano de 2014 as torne incoerentes numa mesma edição de jornal). Mas a intenção foi novamente comprometida pela preguiça, ao copiar e colar notícias prontas sobre um curso gratuito da DPaschoal (p. 10), regras do Código de Defesa do Consumidor (p. 28) logo abaixo das manchetes “Perna Cabeluda ataca em vários bairros do Recife” e “Todo mundo correndo no calçadão… e não era pra malhar!”.

E do ponto de vista estritamente narrativo, há de se considerar o arrefecimento do ímpeto de André Balaio. O que fica claro na timidez do roteirista em não avançar nas teorias sobre a origem sobrenatural da Perna Cabeluda e a interferência de Sérgio sobre ela. Algo que talvez tenha ficado para uma sequência futura, como aponta o final da história.

Lido em fevereiro de 2015
Escrito em 03.03.2015


Relação com os autores: Próxima. Sou amigo pessoal de André Balaio.

FICHA TÉCNICA

A rasteira da Perna Cabeluda
André Balaio e Téo Pinheiro
Editora: Bagaço
1ª edição, 2015
32 páginas

EPÍLOGO

Manguebeat: A Perna Cabeluda ganhou um novo fôlego no imaginário recifense ao aparecer nas músicas Banditismo por uma questão de classe de Chico Science & Nação Zumbi e Roendo os restos de Ronald Reagan da Mundo Livre  S/A.

Recife: A rasteira da Perna Cabeluda é um produto da equipe do site O Recife Assombrado. O projeto é inspirado no livro Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre e é dedicado às histórias de horror e seres sobrenaturais.

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Histórias em quadrinhos d’O Recife Assombrado – André Balaio e Roberto Beltrão (Org.)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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