Refrão da fome – J.M.G. Le Clézio

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História em pequenos fatos do cotidiano

Publicado pouco antes do francês Jean-Marie Gustave Le Clézio ser anunciado como vencedor do Prêmio Nobel, em 2008, o romance Refrão da Fome traz de maneira sutil, mas sufocante, as questões da literatura do autor francês. Sua origem paterna das Ilhas Maurício reaparece no livro através do interesse pela discussão sobre identidade a partir da relação entre pessoas na condição de estrangeiros. A sensação de deslocamento, no entanto, não se impõe apenas em referência à origem geográfica, mas também à diferença de idade ou mesmo à postura política.

A exemplo de O africano, Le Clézio volta a usar em Refrão da Fome lembranças da família como combustível da sua ficção, aventurando-se agora na trajetória da mãe. Ele apresenta uma narrativa no período entre guerras, acompanhando a decadência de uma família natural das Ilhas Maurício que vive em Paris. Mas, o que poderia ser mais uma recriação de história real sobre a Segunda Guerra Mundial, ganha novos atrativos pela forma encontrada pelo autor na hora de estruturar a narrativa.

O pulo do gato está na escolha da menina Ethel para conduzir a trama. É através da sua percepção infantil que percebemos as mudanças vividas pela Europa, com seu olhar ingênuo tentando entender a ascensão do comunismo e as ideias propostas pelo chanceler alemão Adolf Hitler, até então questões ainda envolvidas pela névoa da proximidade histórica. Os assuntos primeiro surgem no campo das ideias, a partir das discussões ocorridas durante as festas promovidas pelo pai de Ethel. A menina passa a anotar trechos dessas conversas em seu diário, que, embora guardem o tom despretensioso de passa-tempo, servem como um retrato daquela época instável de ferveção ideológica.

Algo que só será, de fato, esclarecido após a invasão dos alemães à França. Com a dominação dos nazistas, a família de Ethel começa a sentir na pele o significado do projeto de Hitler, sofrendo com a escassez de alimentos e a privação da liberdade, além de assistir à degradação humana e ao aumento da xenofobia. Apesar da importância histórica dos fatos, as transformações sociais dessa época aparecem como detalhes da trama, relatadas à distância. A guerra em si surge de relance através de um breve relato de Laurent, namorado de Ethel que lutou como soldado numa operação ao norte da França. A questão da caça aos judeus também é vista de relance, por meio do incômodo de Laurent em relação ao silêncio no apartamento de sua tia, que fora levada para a prisão de Drancy.

As transformações políticas ocorridas na Europa da época servem quase como uma metáfora da vida de Ethel. Na narrativa, essas modificações decorrentes da ascensão do nazismo e o surgimento do comunismo são contadas em paralelo ao difícil processo de amadurecimento da personagem. Aparecem enquanto Ethel desenvolve uma relação de amizade com a garota russa Xénia, sofre a perda do seu querido tio-avô, descobre o amor com Laurent e vive o drama da decadência financeira de sua família, que perde quase todo patrimônio, inclusive as amizades, após sucessivos negócios fracassados do pai de Ethel. A partir desse círculo familiar, fazendo sutis relações entre os personagens e a situação da França, Le Clézio conduz o rumo da Europa que a História revelou como trágico.

Thiago Corrêa
lido em Dez. de 2009
escrito em 24.12.2009
reescrito em 19.01.2010

: : TRECHO : :

“O silêncio em Paris no mês de junho. Após a efervescência, os rumores, e depois aquelas bombas que caíram sobre a capital ao acaso, e as sirenes da defesa passiva, as correrias das famílias pelos porões, o retorno à superfície das crianças encarvoadas por pelotas de coque, as disparadas pelos corredores do metrô – o barulho das bocas sobretudo, os comentários, as narrativas, os prognósticos, as manchetes da imprensa” (p. 155).

: : FICHA TÉCNICA : :

Refrão da fome
J.M.G. Le Clézio
Tradução: Leonardo Fróes
Cosac Naify
1a. edição, 2009
248 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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