Árvore de Maravilha | Relicário

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Relicário
Aline Arroxelas

Abrira a porta cuidadosamente. Sem fazer barulho, conseguiu passar despercebida pelas visitas de sempre, sentadas na sala. Para evitar as perguntas inconvenientes, tornou-se quase uma sombra para passar pelo corredor. As portas fechadas ajudaram; nenhuma se abriu. Nenhuma voz gritou seu nome. Poderia jurar que estava sozinha, se não soubesse das visitas na sala, das pessoas por trás das portas fechadas e das vozes que, a qualquer momento, poderiam chamá-la pelo corredor. Chegou, enfim, ao banheiro.

Aliviada e grata pela passageira solidão que ali encontrava, passou o trinco na porta. Precisava se certificar de que ninguém mexera ali. Vivia apavorada, com medo de que um dia viessem a descobrir o tesouro e tirá-lo do lugar onde vivia protegido, certamente para enchê-la de perguntas e cobranças, tentando convencê-la a usá-lo e expô-lo ao alcance dos curiosos. Isso, definitivamente, ela não toleraria. Passara anos cuidando para que ficasse bem escondido, isolado, perfeitamente resguardado, sem que ninguém soubesse quão difícil foi realizar a proeza que agora tinha por dever ocultar.

Ademais, de tão frágil, poderia se quebrar ao menor descuido, cair das mãos de alguém menos atencioso, poderia até mesmo se desfazer, derreter, ruir, se não soubessem como mantê-lo. Era o que de mais precioso ela poderia ter; e era o que precisava esconder no banheiro, por trás do espelho, embaixo das caixas de remédios para dor de cabeça, ao lado dos cosméticos que a deixavam mais bonita, ou assim o prometiam. Precisava se certificar de que ainda estava lá, intacto, que ela não tinha sido desmascarada.

Abriu a portinha espelhada. Com todo o medo, a prudência e a ansiedade de que era capaz, levantou as caixinhas brancas e o viu – viu o relicário – exatamente onde o tinha deixado. Se alguém a estivesse observando, certamente teria notado uma infinita tristeza em suas mãos, nos seus olhos escuros, na sua pele seca. Mas ninguém viu.

Pensou, como tantas vezes antes, que talvez não fosse o melhor lugar para guardá-lo, ali naquele banheiro frio, lavado duas vezes por semana e com cheiro de limpeza. Merecia um lugar ardente, inflamado, com cheiros exóticos e sedutores. Mas isso seria impossível. Lá, atrás do espelho, era o lugar onde ninguém o procuraria, e assim ali permaneceria, até que o seu conteúdo fosse já passado, uma lembrança perfeita e virgem de algo cuja perda sequer poderá mais ser notada, porque já nem mais lembrada.

Melancólica, e resignada, examinou em suas mãos o fino relicário e teve pena de seu conteúdo: era o seu próprio coração tornado pedra, pequeno e murcho, imóvel e suspenso em sangue já grosso, velho, como em um vaso de formol se protege a morte do apodrecimento. Em uma pequena placa prateada estava gravado o seu nome, como as pessoas por trás das portas gravam alianças de casamento ou coleiras de cachorro.

Sentiu pena, mas sua compaixão não durou mais que um segundo, derrotada que foi por um poderoso sentimento de impotência. Pareceu-lhe natural, então, voltar a esconder seu segredo, na esperança de que, se jamais encontrado, seu tesouro jamais poderia ser corrompido.

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