Retábulo de Jerônimo Bosch – Everardo Norões

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PRÓLOGO

Autor: Everardo Norões nasceu em 1944, no Crato-CE. Escritor radicado em Pernambuco, viveu na França, Argélia e Moçambique. É autor, entre outros, dos livros de poesia: Poemas argelinos (1981), Poemas (2000), A rua do padre inglês (2006), Retábulo de Jerônimo Bosch (2008), Poeiras na réstia (2010). Organizou a obra completa de Joaquim Cardozo (2010). Tradutor, organizou antologia de poesia peruana, do poeta mexicano Carlos Pellicer, do poeta italiano Emilio Coco e de poetas franceses contemporâneos.

Livro: Publicado em 2008, o volume reúne 76 poemas. A edição traz orelha assinada pelo poeta e crítico literário Fábio Andrade e prefácio do poeta e crítico Hildeberto Barbosa Filho.

Tema e Enredo: Tour pela memória de uma subjetividade lírica que está elaborando seu próprio sentido de ser. Norões parece nos dizer que vai apresentar esses painéis, quadros, estátuas, imagens memoráveis; diz também, assim que começamos a ler as páginas de seu livro, que ambiciona figurar os matizes do seu próprio canto.

Forma: A recordação lírica, esse passado que se atualiza – ou melhor – que é produzido por um presente dilatado adquire, no contemporâneo, também um matiz crítico e mesmo político. A poesia de Norões abre uma fresta por onde podemos espiar, revisitar o ferimento de determinados eventos sociais duros de suturar.

CRÍTICA

Por uma arqueologia lírica

Um retábulo medieval era uma verdadeira festa do olhar. Passe os olhos pelas pinturas ou esculturas que dão cor e corpo ao martírio dos santos: você vai perceber que o retábulo tinha a função de deleitar, instruir e fixar na imaginação do crente a sensação do divino. Alguns se desdobravam em duas ou três faces compondo um conjunto que poderia se chamar díptico ou tríptico. Sugiro ver os retábulos como portas para a cena sagrada – alguns desses painéis continham dobradiças que deixavam suas partes articuladas. A estrutura parece insinuar ainda a ideia de um recinto, por onde o homem passeia sua vista e sua mente voltada para as coisas divinas.

Na capa do quarto livro de Everardo Norões – Retábulo de Jerônimo Bosch – figura apenas um detalhe do tríptico O jardim das Delícias, do pintor holandês Hieronymus Bosch. Mas você não adentra um ambiente silencioso e solene próprio de uma igreja ao entrar no livro de Norões. Não se entra numa poesia metafísica de pretensões místicas, mas numa fala atravessada pelo mundo e pelo suor das coisas angelicais e demoníacas, coisas “demasiado humanas”, diria Nietzsche. Tour pela memória de uma subjetividade lírica que está elaborando seu próprio sentido de ser. Na orelha do livro chamei a atenção para a importância da memória na obra poética de Everardo. Isso não é privilégio da poesia dele – esse mesmo trabalho de arqueologia lírica pode ser percebido em outros poetas atuais, como é o caso de Samarone Lima em O aquário desenterrado.

Norões parece nos dizer que vai apresentar esses painéis, quadros, estátuas, imagens memoráveis; diz também, assim que começamos a ler as páginas de seu livro, que ambiciona figurar os matizes do seu próprio canto. As artes se solidarizam: pintura e música para traduzir o gesto poético verbal.

Gesto poético através do qual, também e fundamentalmente, podemos desenterrar a memória que nunca está pronta – como aparece nos versos do poema que abre o livro: “o canário / debulhava trinados. / Na rede / fluíam fábulas. / Sobre muros e telhados / os urubus empinavam / lições de trevas. / No alto, / apenas uma nuvem / me escutava…” . Se me pedissem para resumir o livro numa imagem eu usaria essa, a do delicado pássaro cantor ameaçado pelo voo dos urubus trevosos. O canto e a pintura do que cerca o canto. Podemos também associar delicadeza e precariedade à frágil memória que trabalha e cria.

O teórico suíço Emil Staiger, no livro Conceitos Fundamentais da Poética (Grundbegriffe der Poetik, 1946) –, ao tratar dos gêneros literários falava do lírico enquanto recordação. Para ele o “passado” que os líricos procuram trazer “não está longe nem terminou”. De certo modo, o passado “não delineado nitidamente e nem compreendido em sua totalidade, movimenta-se ainda e comove o poeta e nós mesmos”. Em outras palavras, há algo por fazer, inacabado, na própria natureza da recordação lírica que permanece no poema em trânsito constante com o presente. A analogia, própria da metáfora e da comparação é muitas vezes o índice de recuperação do passado, como acontece no poema 9 da primeira seção do livro: “Procuro uma voz / que debulhe o poema / como minha mãe / debulhava o milho”.

A própria palavra “recordar” em sua etimologia remete a uma revisitação, trazer à tona algo que estava “esquecido”, ou trazer de volta ao coração algo que ele já viveu. Nesse sentido o ato poético é guiado pela necessidade de dar novamente consistência ao que havia perdido corpo, escorrido pela ampulheta dos dias. Segundo o mesmo Steiger, “O poeta lírico nem torna presente algo passado, nem também o que acontece agora. Ambos estão igualmente próximos deles; mais próximos que qualquer presente”.

A recordação lírica, esse passado que se atualiza – ou melhor – que é produzido por um presente dilatado adquire, no contemporâneo, também um matiz crítico e mesmo político. A poesia de Norões abre uma fresta por onde podemos espiar, revisitar o ferimento de determinados eventos sociais duros de suturar. É a sugestão do poema Desaparecidos: “Seus corpos ainda não constavam / do rol dos desaparecidos: / não havia hematomas, / nem as manchas azuis / nem os cortes nos lábios, / nem os sinais de pus. / Os gemidos / eram apenas sussurros: / folhas do martírio / detrás dos muros (…)”.

No poema Estátuas, que me parece bela alegoria da luta contra a opressão, a voz poética aproxima duas estátuas, uma em Nantes e outra em Argel. A recordação enquanto aproximação, ou eliminação das distâncias, diria Steiger; faz nascer um contraste que tem visíveis ressonâncias políticas. Uma, a estátua deitada de Juchault de Lamoricière, general importante na conquista da Argélia, um “mármore frio”; a outra, a estátua equestre do Emir Abdelkader, herói da resistência argelina contra a dominação francesa. O poema é arrematado com os seguintes versos: “(Na gramática do tempo / consuma-se a linguagem perfeita / das estátuas)”. Os parênteses demarcam uma espécie de intervenção irônica que tem a função objetiva de acentuar o contraste que a aproximação entre as duas estátuas, uma deitada e outra altiva e imponente, gera. Além do mais, a estátua como marco da memória pública se dobra aqui à aproximação lírica que a recordação crítica promove. Esse poema é uma peça exemplar desse lirismo contemporâneo, íntimo e coletivo, ao mesmo tempo privado e social.

O Retábulo de Jerônimo Bosch é uma grande galeria. Podemos passear nela eu e você recolhendo impressões bem diferentes. A música de Haendel, a pintura de Goya, a voz de outros poetas enrouquecida pelo tempo, o próprio Bosch com seus anjos e demônios estranhos… mas em todos os poemas sentiremos o gosto profundo de uma humanidade cheia de contrastes. Caminharemos conduzidos pelo esforço poético pessoal de recordar, mas também pelo compromisso político de lembrar.

Relido em dezembro de 2014
Escrito em 25.12.2014


Fábio Andrade é poeta, crítico literário, mestre e doutor em Teoria da Literatura pela UFPE, onde hoje é professor do curso de Letras.

FICHA TÉCNICA

Retábulo de Jerônimo Bosch
Everardo Norões
7 Letras
1ª edição, 2008
126 p.

TRECHO

“Uma janela dilacera a paisagem:
lá fora não é o meu país.
Arde a palavra estrangeira
em minha palma:
tempo traço giz.
O silêncio
retalha nossa língua:
há tantas horas tristes nesta tarde…
A cal do muro aviva esse vazio
e cala.”, (poema: Janela, pág. 85).

OUTRAS OPINIÕES

Lourival Holanda, na Eutomia – Revista de Literatura e Linguística, em agosto de 2012

(http://www.revistaeutomia.com.br/v2/wp-content/uploads/2012/08/Em-torno-da-poesia_p.154-166.pdf)

“Everardo Norões retomou um ritmo antigo, o da ladainha, e insuflou no poema um vigor de renovação. Poeta de aguda consciência crítica, Everardo guarda, no entanto, antes do coração à esquerda, um centrado ouvido interior. E poeta é precisamente quem se ocupa com a linguagem de um modo indefinível – mas alargando, no ritmo, as possibilidades do dizer.”

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