Revista #1 | Aconteceu com um amigo meu – Mário Lins

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Aconteceu com um amigo meu
Mário Lins

Vou contar uma história curtinha que realmente aconteceu com um amigo meu. Esse cara, vamos chamá-lo de José, era uma das figuras mais engraçadas que já conheci. Ele tinha um monte de histórias mirabolantes, causos mentirosos e só usava personagens de apelido esquisitão, do tipo Rupinol ou Zé Pintor.

Para você ter uma idéia, num dos nossos encontros ele contou sobre a cachaça enoooorme de um amigo no reveillon. A cana foi tanta que Tesoura, esse era o nome da figura, se embriagou no final de 97 em Pipa e acordou pelado em Porto de Galinhas no começo de 99.

Bom, mas só estou registrando o fato porque admiro muito essa capacidade de inventar histórias assim, do nada. Sim, porque mentir não é para qualquer um. Pode prestar atenção naqueles velhinhos contadores de lorota lá do interior. Eles têm uma técnica impressionante, conseguem falar o dia inteiro sobre suas histórias de guerra mesmo quando todo mundo já sabe que eles não foram para a guerra coisa nenhuma.

Mas já estou fugindo do assunto. O negócio é que esse meu amigo, o José, resolveu que queria ser escritor. E conseguiu não-sei-como se juntar com um grupinho de intelectuais de esquerda, esse povinho jornalista metido a reacionário, e organizar um fã-zine para “estimular a leitura e incentivar o pensamento livre”, pelo menos foi isso que ele disse.

Tudo ia bem com o José inventando aquelas histórias malucas e o pessoal acreditando, quando chegou a hora do vamos-ver e ele precisou escrever uma história. Sentou-se com uma caneta na mão e pensou, pensou, passou a tarde inteira olhando o papel e nada. Daí resolveu que era fácil, ia pegar todas as invenções que já tinha contado na vida e amarrar tudo com um final dramático super triste para encantar os leitores do mundo inteiro.

José passou a noite toda escrevendo, eu sei disso porque ele me ligou às três da manhã perguntando se o correto era traslado ou translado. Disparei uma vá-se-foder-e-procurar-num-dicionário, mas aí ele emendou com mais um acontecimento fantástico envolvendo seu Houaiss novinho e gato preto que nem noite de interior. Desliguei e passei o resto da noite embolando na cama.

Bem, mas depois de uma noite insone batendo nas teclas do velho computador, José estava quase acabando. A história era dele mesmo, nada de amigos com nomes esquisitos, e só faltava o final. E nada de mentiras, na senhor, era tudo verdade, tudinho, aconteceu mesmo, palavra de José. Cansou de ser um mentiroso contador de histórias, estava mais do que pronto para assumir o alto posto de escritor máximo da língua brasileira.

Mas faltava o final, o desfecho completo e irrefutável, a trágica conclusão de um enredo épico de feitos descomunais. Tudo verdade. E não é que o José teve uma idéia genial? Teclou as últimas palavras sem pressa, timidamente, releu tudo, uma, duas, cinco vezes, até se dar por convencido e depois sorriu, orgulhoso. Isso eu estou imaginando, não dá para saber ao certo, mas conhecendo o José como eu conheço, é bem provável que tenha acontecido.

Ele deve ter demorado algumas horas para perceber que o final excelente era mentira. Isso porque o médico atestou a hora da morte como sendo às quatro da tarde do dia seguinte. Na minha cabeça, ele estava só juntando coragem para terminar a vida exatamente como a história mandava, assim, devagarinho, se preparando para assumir o alto posto de escritor máximo da língua brasileira. No infinito e além.

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