Revista #2 | Ataque – Marcelo Pedroso

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Ataque
Marcelo Pedroso

Ouço passos à noite e sei que são eles: os homúnculos. Não é a primeira vez que me cercam, me sitiam, me querem penetrado. Salto sobre a rede a fim de me proteger. Quando suspenso, estou a salvo. Imagino uma saída. Talvez a porta. Tarde demais. Ei-los de novo. Estão armados e me alvejam com projéteis do tamanho de átomos. É sua maior investida. São milhares, temerosos, aliaram-se a velhos inimigos para me capturar. Penso em distraí-los. Se nessas horas criasse um gato, me safaria. Malditos felinos. Rápido! Uma mutação que me dê asas, uma pistola de raios paralisantes.

Não há mais tempo. Eles se aproximam com trabucos. Artilharia redobrada. Alguns lançam flechas incendiárias contra a rede. Fogo! Fogo! Nenhum vizinho para me acudir. Nenhuma polícia para me prender. Já sei: o guarda-chuva. Alcanço-o no umbral com a ponta dos dedos. Aberto, me serve de balão graças aos gases quentes que escapam da rede em chamas. Flutuo. Elevo-me lentamente no quarto até atingir o teto. O horror! Dezenas de helicópteros liliputianos levantam vôo em minha direção. Estão munidos de mísseis teleguiados. Acertam minhas mãos, que soltam o cabo do guarda-chuva. Despenco estrondosamente no chão. Já não há como reagir: são agora milhares que se precipitam sobre mim, laceram minhas carnes com machadinhos neolíticos, arrancam peças de minhas roupas como se fossem troféus inestimáveis. Acordo, crucificado ao casco de uma navio colossal, sobre o qual celebram os miseráveis ensandecidos. Vejo que estou mutilado. Faltam-me uma perna e alguns artelhos. O pênis, asseguro-me, está intacto. Percebo que fazem um festim com minhas partes. Mastigam minha panturrilha com voracidade. Então será esse meu fadário: retaliado aos poucos, servir de alimento aos navegantes do mar pequeno.

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