Revista #2 | Ave Maria – Jacques Waller

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Ave Maria
Jacques Waller

Silva andava desesperado pela viela fria. Estava escuro pela noite e pela falta de lâmpadas nos postes do subúrbio sem fim. Gravata frouxa, desajeitada, terno roto e amassado. Passos rápidos no asfalto empoçado com água da chuva próxima à madrugada. Aquela que cai, bate na janela e acalenta os que dormem tranqüilos.

Não estava tranqüilo. Remexia os bolsos, buscava um cigarro, parou na calçada, do outro lado da rua e sacou o isqueiro. Fagulhas iluminaram seu rosto. Barba por fazer, olheiras, cabelo desgrenhado e oleoso. Cicatrizes de duas noites sem sono.

Tocou o bolso por fora do paletó. O presente estava lá. Olhou a porta. Cinqüenta metros. Cigarro amassado, meio úmido e apagado. Inútil e descartado. Passos firmes e rápidos em direção ao prédio. Três degraus, porta, interfone. Apartamento 107.

“Alô?”, disse a voz no aparelho.
“Oi, Maria…tu pode vir aqui na porta?”, disse ele nervoso.
“Silva? O que você tá fazendo aqui?”, disse Maria.
“Vem aqui…eu…queria falar contigo…trouxe um negócio pra tu…”.
“Porra, Silva…é quase meia-noite…e a gente já conversou sobre tudo isso…”.
“Puta que pariu…não custa!”
“Tá…mas já já vou dormir, viu?”
“Tá…é rápido….”.

Espera. Checa presente no bolso. Anda dois passos para a esquerda, dois para a direta. Mais um para a esquerda e a porta abre. Maria, de moleton, camisão branco e cabelos vermelhos, soltos, vê Silva meio de cima: um corpo em decomposição e ôco de remorso, em pé, nervoso, em uma moldura de prédios baixos, luzes impresionistas no asfalto negro e uma escadaria de três degraus.

“Te trouxe um presente…”
“Silva…”

Puxou do bolso o 38, apontou e disse:

“Viva com isso” e atirou na cabeça.

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