Revista #2 | Crisálida – Aline Arroxelas

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Crisálida
Aline Arroxelas

Um homem acorda de manhã e ele quer ser novo. Já recebeu o salário, talvez já tenha pago as contas do mês, dispõe da comida e da bebida que seu corpo precisa, mas isso não lhe é suficiente; ele quer ser um novo homem.

Então este homem acorda, e não sabe o que de ontem ainda tem em si. Sabe que tem que estar no trabalho às oito e sabe quais os compromissos que lhe aguardam. Sabe exatamente o que dizer em cada uma das situações sociais que se lhe apresentam: feliz aniversário, muito sucesso, um abraço para a esposa!  Mas também sabe que aquilo ali, gasto e cansado, já não é mais ele, senão algo que foi.

Descobre, incauto, que é hora de partir, criar horizontes (ainda que imaginados) e percorrê-los em busca daquilo que havia se tornado. Deveria libertar-se o quanto antes, logo, peremptoriamente, porque era cessado de ser quem era, e tinha muita pressa em passar a ser o que deveria passar a ser.

Mas a habilidade de reinventar-se é para poucos; perguntou-se se a transmutação seria muito dolorosa, lenta, já se imaginou agonizando em um casulo ainda não completamente formado. No entanto, não tinha escolha. Não poderia mais fingir que continuava o homem que tinha sido, já se espalhava ao seu redor o cheiro estranho do novo, que não era bom, nem ruim, era só desconhecido. Tinha ganho novas sensações olfativas.

Assustado, questionou até que ponto ainda continuava a ser humano. Afinal de contas, aquelas ambições generalizadas, as buscas vãs daquilo que era inócuo, improdutivo, o dinheiro, o casamento, o prestígio, a vergonha — notas uníssonas de uma humanidade já tão perdida e distante — não lhe diziam mais respeito. Reconfortou-se, o homem, ao perceber que ainda tinha mãos. As mãos, sim, eram humanas (davam, tiravam, convidavam, afastavam, proviam, destruíam), e agarrou-se a elas como um sinal familiar, porque não sabia como poderia substituí-las — se obrigado fosse — nessa nova forma que tomava. Talvez as mãos fossem, depois de tudo, o que havia de verdadeiro no que fora.

Saiu à rua, aquele homem, foi ver a luz do sol. Sentou quieto na calçada, ficou só e calado, para esperar a transformação. Fechou os olhos e descobriu que, se não estivesse morrendo, já tinha nascido de novo.

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