Revista #3 | Estrelas no céu da tarde – Mário Lins

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Estrelas no céu da tarde
Mário Lins

Um bom começo prende o leitor pelas bolas. Ela bocejou, já cansada das frases de efeito que ele disparava a cada dois ou três minutos, microfone na mão e oratória impecável. Nem bolas ela tinha, diabos! Na sua opinião, livros eram escritos como num passe de mágica, em meio a sombras coloridas, ossos envelhecidos e pó de fada encantada. Todas aquelas regras dos manuais eram para os idiotas, para os sem-imaginação.

Quando for criar um personagem, consulte a lista de arquétipos no capítulo três. Ela riu sozinha enquanto olhava pro cara bonito ao lado. Capítulo três… bastava selecionar a personalidade favorita, adicionar água e pronto: salta uma Sherazade no capricho! Mas o bonitão escutava a palestra com tanta atenção que não era pra ser. Não senhor, não podia imaginar um cara daqueles correndo os olhos pelo segredo do Menino Arco-íris e seu tesouro de sonhos roubados.

Ao começar uma cena, procure descrever o local em detalhes. Essa aqui, pensou, tem um zilhão de rostos cinza, paredes furta-cor e um zumbido monótono escapando das grades do alto-falante. Muito pior que a Torre Vermelha, com suas paredes de corpos mutilados e sangue velho. Quem entrava lá sempre morria antes de chegar ao segundo andar, o que devia ser infinitamente melhor do que aturar essa monotonia eterna.

Quando a personagem chega ao final da caverna oculta e vence a provação suprema, inicia-se o terceiro ato ou fase de resolução. Ela achava aquela história de atos tão antiga que não agüentava mais nem ouvir falar. O pior era que ultimamente só davam os mesmos exemplos: Ulisses, Senhor dos Anéis e Matrix. Ninguém mais falava da obra original, A Jornada de Orsínio. Ela gostava tanto da cena em que Orsínio sacava sua espada e cortava fora a desesperança do coração da sacerdotisa…

O final de uma boa história tem que ter a força de um tapa na cara. Se ela ouvisse mais uma frase de efeito, não sabia o que ia fazer. Então percebeu: duas fileiras na frente, um garoto gordinho havia se levantado. Parecia deslocado: camisa suada, olhar perdido, um membro desgarrado do rebanho cinza. Carregava um calhamaço de papéis rabiscados com desenhos de monstros e flores do campo. Estava indo embora.

A palestra não estava nem na metade, mas quando o garoto passou pelo corredor lateral e seus olhares se cruzaram, ela sentiu que precisava ir junto. Finalmente. Saiu atrás dele, numa agitação contente igual a todas as outras vezes. Sorria girassóis e deslizava sobre o chão numa linda melodia. Ansiosa, enrolava cachinhos com o dedo nos cabelos enquanto desenhava estrelas coloridas no céu da tarde. Seu nome era Inspiração. Fazia quase um século que não era musa de ninguém.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

2 Comentários

  1. Miguel Pires Rodrigues em

    A inspiração é irmã da expiração, não é gêmea, mas é irmã. Inspira…Expira…Inspira…Expira…Inspira…Expira…As duas juntas formam a respiração. A respiração é irmã da transpiração. As duas fazem parte da vida. E foi dito do suor do teu rosto ganharás o teu pão.

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