Revista #3 | Notícia – Thiago Corrêa

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Notícia
Thiago Corrêa

Procurou na internet, checou e-mail, fez algumas ligações e nada. Suas fontes estavam secas. Tudo na mesma, igualzinho à ontem. Reuniu editores, discutiu, disse que era impossível. Nenhuma notícia. O mundo continuava idêntico ao do jornal lido no café-da-manhã.

Políticos em paz, celebridades mantendo relacionamentos, Bush sem querer invadir outro país. Nenhum flagra de Luana Piovani, golaço de Ronaldinho ou declaração polêmica de Romário. Não havia homem-bomba explodindo judeus nem adolescentes reprimidos atirando em Columbia. Nada de shows, lançamentos ou inaugurações. Até o preço da gasolina era o mesmo.

Parecia quarta-feira de cinzas sem os números oficiais de violência, escola de samba campeã e o Bacalhau do Batata. O que fazer num dia desses? Repórteres sentados, esperando pauta. Mandou que saíssem às ruas em busca de qualquer coisa, assalto, batida de carro, ataque de tubarão.

Os ponteiros do relógio começavam a incomodar. Já eram cinco da tarde e só o trabalho dos estagiários estava pronto. Cartas, grade de televisão, tábua de marés, horóscopo, resumo das novelas. Calvin, Charlie Brown, Mafalda e Os Skrotinhos dominando a página.

Jornalistas voltavam dizendo que a cidade funcionava perfeitamente, afundada na rotina, repetindo o dia anterior. Precisava de um escândalo, algo que merecesse capa e rendesse umas cinco vinculadas. Desejou um pronunciamento do presidente na televisão triplicando o valor do salário mínimo. Ou reduzindo, tanto fazia. Queria notícia, daquela que vende. Implorou por uma chacina, sangue, crianças chorando.

Os deadlines foram estourando um a um. Cultura, economia, esportes… O último caderno virou único. Consultou o departamento comercial, chamou o diagramador. Juntou o que tinha com anúncios, crônicas, avisos de missa de sétimo dia, expediente, cotação do dólar, cruzadinha, jogo dos sete erros, índices da Bovespa, Nasdaq, Dow Jones. Meteu três calhaus, deixando o espaço da reportagem de capa e mais duas metades de página em branco. Uma delas reservada ao editorial.

A meia hora do fechamento, precisando de pelo menos uma matéria, ficaria contente com eleições na Albânia, lançamento de zine, briga de galo. Mas nem isso. Cadê aquelas invenções japonesas inúteis? Vasculhou agências de notícias regionais, nacionais, internacionais – todas com cheiro de abandono. Foi quando percebeu que esse também era um problema dos concorrentes. Quem arrumasse uma notícia, qualquer que fosse, seria o único em condições de imprimir o jornal.

A pressão aumentava a cada instante. Dependia de um acontecimento. Era a chance da sua carreira, de se tornar reconhecido, um exemplo de profissional. Daqueles que dão a vida por uma notícia, feito repórteres de guerra. Poderia ser comparado a Robert Capa (1913-1964), quem sabe… Fingiu desistir, dispensou o pessoal da redação. Sozinho, redigiu o editorial e a matéria. Escreveu a manchete já imaginando a repercussão. Escolheu as fotos, mandou pra impressão. No dia seguinte, as notícias reapareceram. Com ele em quase todas.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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