Revista #3 | Prelúdio – Joana Rozowykwiat

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Prelúdio
Joana Rozowykwiat

E, antes de tudo, seria o fim. Não convém precipitá-lo, mas às vezes ele se impõe, e aí danou-se tudo. Então, quando Maria Ester abriu os olhos, naquela tarde chuvosa, não amava mais o marido. Os presentes ainda empilhados no chão, a casa tão branca quanto o vestido que usara na noite anterior, aquele homem perfeito ao seu lado.

Nem chegara a estrear todos os cômodos do lar, mas já sentia enjôo de olhar aquilo tão arrumadinho. Buscou o espelho e refletiu-se cor de chumbo, seca. Por fora, ao redor, tudo certo demais. Ela que era errada. Agora sofreria para sempre, até definhar, antes mesmo do anoitecer. Gostaria de antecipar tal hora, mas não tinha poder sobre o tempo. Aí resolveu controlar o desamor.

Preparava o jantar e a poesia, comprava guardanapos coloridos, inventava um Dia Internacional do Carinho e tudo que pudesse distrair o juízo. Mas, dia-sim-outro-também, reprimia com rispidez uma lágrima fujona. Porque não concordava consigo mesma e odiava a sensação de pensar-se louca.

Claro que normal não era. Assim fosse, brindaria à curta vida das borboletas e seria sempre cor-de-rosa, que a felicidade estava ali tão oferecida… Mas não conseguia agarrá-la. Acreditava que um casamento deveria ser como uma árvore enorme de raízes profundas e retorcidas. A idade iria acrescentando flores, nós, outras plantas, passarinhos. Mas ela se sentia mais cupim – e galho morto.

É cruel perceber um futuro imutável de uma só vez; ele fica ainda mais sem saída, nada de esperança. Maria Ester tinha tudo e o marido lhe queria mais. Ela sabia, no entanto, que uma hora partiria. Só não esperava que fosse assim, numa segunda-feira ao meio-dia, depois de ver, de longe, o marido acariciando uma pele mais branca que a sua. Aquele ordinário.

Como pôde se iludir por tanto tempo? Ela, tão doce e amorosa… ludibriada por aquele canalha que nem ao menos a respeitava. Tanto sentimento desperdiçado, quantos carinhos equivocados, incontáveis enganos. Arrumou uma mala pequena e saiu discretamente.

Quando Jorge chegou em casa, não deu por falta de nada. Sentou-se com a outra no sofá e esperou a mulher para o almoço. Queria que Ester conhecesse sua irmã do Mato Grosso. Mostrar a esposa, tão dedicada. Que sumiu no oco do mundo.

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

1 comentário

  1. RICARDO XAVIER em

    Sem surpresa pela tremernda originalidade de Joana.Alegria de ler pela primeira vez..MARIA MARUCA.Orgulho meu.RICARDO DO PIAUI.

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