Livre – Tatiana Maciel

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Ela tinha uns sete anos quando viu a primeira pessoa se matar. Se assustou um pouco com a gritaria, com o corpo para fora da janela, com o medo dos outros. Depois chorou porque não pôde ir ao enterro. Mas se todo mundo vai?

Não teve jeito. Ficou sentada na escada de casa, brincando de cortejo fúnebre com suas bonecas. Pintou o carro rosa da Barbie com uma sharpie preta, com capricho, sempre na mesma direção, como a professora de educação artística ensinou.

Não demorou muito, se matou sua avó. Morreu, disseram. Só que de propósito.

A política da família foi a de sinceridade por puro encurralamento, já que era inquisitiva, a menina. Então ensinaram que existia uma coisa chamada de livre arbítrio, que a avó não sabia viver, que escolheu aquilo, coitada.

E ela começou a achar que esse tal de livre arbítrio só existia para os outros, já que ela não podia escolher nem o vestido que ia usar no aniversário da Mirela.

Quando foi a vez do seu pai, ela já tinha onze anos. Depois foram uns tios distantes, uma amiga da mãe, o barulho que ouvia dos corpos caindo do edifício vizinho.

Começou a achar que talvez tivesse alguma coisa com aquilo. Será que ela era contagiosa? Amaldiçoada? Estragadora profunda de prazeres? Por garantia, decidiu rasgar todos os revezes do Banco Imobiliário.

Já não tinha mais amigos e sua culpa não lhe permitia querer conhecer os desconhecidos. Não queria sentenciar à escuridão eterna aquele casal tão simpático ali, nem a ruiva do 435 que puxou assunto.

Um dia sua mãe bateu na porta do quarto, era tarde. Ela estava estudando isomeria óptica para a prova. A mãe pediu ajuda. Compreensão. Paciência. Disse que não queria mais viver, que não gostava da vida.  Eu te amo tanto, minha filha, disse, e achei que só isso seria suficiente. Não é.

A menina ficou em silêncio. Depois perguntou se não tinha mesmo saída. Mas sua mãe lhe passou as senhas dos bancos, os extratos das contas, os seguros e os contratos, com uma tranquilidade de quem já chegou aonde ia.

A menina anotou tudo, prendeu com clipes, separou em pastas. Algumas fichas de estudo acabaram se misturando lá no meio, porque a menina não estava pensando direito. E se nunca soube diferenciar um levógiro de um dextrógiro, podia dizer que foi culpa desse dia. E se nunca soube diferenciar a dor do resto todo, podia dizer que foi culpa desse dia.

Pouco depois, conheceu um cara. O pai dele tinha se matado, afogado numa lagoa, uma tragédia. Se apaixonaram lindamente. Mas por isso mesmo, logo foi embora, o cara. A felicidade nos cai tão mal, ele disse.

Ela fechou a porta e ligou o gás. Mas depois de meio minuto pensou: que besteirada. Tinha crescido a menina. Oi, livre arbítrio, prazer. Desligou o gás, ligou o som alto e se vestiu pra uma festa.

A gente se mata todos os dias da vida, de uma só vez ou devagarinho, como fizeram todos antes da gente. Tem quem escolha hora e tem quem prefira a surpresa. E Teresa gostava demais de surpresas. Estava se lembrando, ainda agora, que quase morreu de susto e de alegria quando ganhou um Guitar Hero no natal de 2005. E riu, riu, mas riu tanto que perdeu o fôlego.

Gil Vicente nasceu no Recife, 1958. Estudou na Escolinha de Arte do Recife e em cursos livres da UFPE e da Escola de Belas-Artes Paris. Em 1975, venceu o Prêmio Salão dos Novos, MAC-PE. Em 1981, recebeu o Prêmio MEC Funarte Salão PE. Participou da Bienal Mercosul em 2001, e das 25ª e 29ª Bienais de São Paulo, em 2002 e 2010.

Tatiana Maciel nasceu no Recife em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É roteirista, tradutora e escritora. Seu romance O Homem dos Sonhos foi publicado pela editora Agir em 2006. Tem uma paixão um pouco descontrolada por histórias, música e sorvete de café.

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