Pedro e eu – Ludmila Rodrigues

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Lembro que minha mãe me abraçava forte, toda destroçada por dentro, chorando uma lágrima grossa feito o diabo, se engasgando baixinho, que era pra eu não ver, mas eu via. Ele arrastava as malas, o suor pingava, ele arfava, não desistia. Ele não era meu pai. Eu já tinha perdido meu pai antes, pequeno de dar dó, nem entendia nada de nada. Minha mãe conta que eu agarrei perna de um e perna de outro, berrei, berrei até ficar estatelado no chão e ela me pegar pra botar pra dormir. De meu pai não lembro muita coisa não, nem dessa perna dele que dizem que eu agarrei. Mas desse outro… Era Pedro, o nome dele. Foi o segundo marido de minha mãe, veio um pouco depois de meu pai. A gente era feito irmão, porque ele era daqueles homens mais novos que a mulher. A gente nem ligava. Pedro me ensinou senão tudo, quase tudo. Dizia que no meu aniversário de dezoito anos ia me levar no puteiro, minha mãe ficava doidinha, resmungava que filho dela não ia em puteiro nenhum, e eu só ria, gostava era demais de Pedro e das ideias dele. Mas, no fim das contas, nem me viu fazer dezoito anos. Se eu lembrei dele no dia, lembrei, né?, mas já conhecia tanto corpo de tanta mulher que dei foi risada. Queria saber como é que anda Pedro, se fez família, se lembra de mim, do menino miúdo que ficava puxando ele pro mar com medo de ir sozinho pra maré cheia quando a gente ia na praia. Deve tá é homem feito, dia desses. Barba comprida como minha mãe gostava. Esses dias ela pegou uma foto dele e apertou assim contra o peito, e eu pensei que amor de verdade deve doer demais quando se perde. Mas minha mãe é mulher orgulhosa e, desde que mandou Pedro embora, nunca mais se falou nome dele nessa casa. Fiquei um tempo achando que ele ia voltar, chegar jeitoso como só ele dizendo esquece isso, mulher, vem cá, vambora cuidar desse piá e ser feliz. Mas Pedro sumiu na poeira da estrada, não apareceu foi nunca mais. Eu fiquei foi com saudade daquela peste, disse isso pra ele, naquele dia, falei: vou ficar com saudade de tu, peste. E ele disse: cuida de tua mãe, piá. E vira homem bom.

Ludmila Rodrigues nasceu em Salvador-BA, em 1991. Publicou O rosto na xícara (2012) e Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes (2014). Atualmente, é estudante de Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e publica contos, poemas e rabiscos no blog: ludmila-rodrigues.blogspot.com.br

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