Apollo is a girl – Fabiano Calixto

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Ela lê sobre os ataques corsários no golfo de Aden, costa da Somália. Os somalis não querem viver de cheirar fumaça de óleo diesel. Iates de luxo, pesqueiros, veleiros, foi tudo pro vinagre. E agora foi a vez do superpetroleiro saudita Sirius Star. Para libertar o navio e a tripulação, os somalis exigem US$ 25 milhões. No abominável estômago de aço do superpetroleiro, dois milhões de barris de petróleo avaliados em US$ 100 milhões. Não queremos que as negociações se eternizem, afirmou o comandante corso. O príncipe saudita decidiu desembolsar a nota preta. A Blackwater logo aportará por ali com setenta mercenários cuspindo coca-cola e chumbo. O jornal sabichão diz que a Somália é o país mais falido do mundo e que depende de ajuda humanitária internacional para sobreviver. Aqueles olhos, antes castanhos, abusavam um azeviche sem alavanca de reparo, como se o jornal lhes houvesse imprimido o imundo carvão de suas tralhas. Às vezes imagino que minhas palavras são como chips de silício afundando num pântano, você disse, antes mesmo que a magra luz do sol de inverno pudesse, com suas lâminas afiadas a persiana, cruzar os pães sobre a mesa. Terrível o planeta que criamos… Sim, mas também sintomático, como aquele sonho que você teve por dias seguidos, onde um artista cego repetia infinitamente a mesma oração: “Não se tira leite de tanques de guerra”. “Não se tira leite de tanques de guerra”. “Não se tira leite de tanques de guerra”. Até que a oração perdesse por completo o sentido. Ele tinha sempre as mãos ensanguentadas e sua obra-prima era uma reprodução hiper-realista em Lego de Eduardo Collen Leite após ser torturado por 109 dias consecutivos. A precisão do artista em esculpir o corpo repleto de porradas e queimaduras, as orelhas decepadas, olhos vazados, dentes arrancados, escoriações, hematomas e centenas de rasgos, a impressionou. Tanto que a vida também perdeu por completo o sentido para você, lembra? Sempre há quem tente mudar as coisas. Como aquele homenzinho que dedicara sua vida a olhar demoradamente as pinturas dos grandes mestres franceses e a derrubar o governo da Rússia. Sim, exato, mas o que fazem os jovens inteligentes das famílias abonadas, senão falar de literatura e de pintura? Ou aquele velhinho, cujo azul salgado do mar ardia-lhe a pele e que não pescava peixe algum há 84 dias até entrar num violento combate com o enorme espadarte que, vencido, negou-lhe a carne e esparramou apenas seu imenso esqueleto à orla. E nós também gostamos de biscoitos de gengibre, de música vienense, de fumar e de beber licores fortes como metal fundido. Mas não somos mesquinhos, não posamos de subversivos doentes de esnobismo burguês. O tiro de fuzil aceso na semântica de um poderoso verso pode alterar alguma frase na prosa da história? Pode derrubar um caça israelense momentos antes de descarregar sua diarreia sobre os civis na Palestina? Poderia, naquele 16 de setembro de 1982, conter as milícias cristãs libanesas que invadiram os campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila e massacraram a população? Poderia ter evitado o assassinato dos ativistas Michael Schwerner, Andrew Goodman e James Chaney cometido pela Ku Klux Klan no dia 21 de junho de 1964? Poderia nos salvar de nossa inevitável desolação? Uma rima pode algo contra uma carnificina? Jamais! Somos, todos nós, editores de discursos perversos, desembrulhando bombons e vendo ouro onde não há. Eu poderia cantar uma canção para descansar a menina dos seus olhos. Estamos sempre prontos, vestidos com nossas camisas, quase sempre claras, de tecido barato. Esvaziamos os copos, tentamos riscar um sorriso no rosto um do outro. Tentamos pensar que, mesmo sob a manta empesteada desta terrível miséria, ainda vale a pena continuar respirando por este planeta. Como o casal que caminha de mãos dadas e cujas camisetas azul e vermelha machucam o cinza esquizofrênico da cidade bombardeada. É preciso que diga como vejo esta maçã, a rua, as pessoas, meu cinzeiro de cerâmica, aquela garota na janela, já que foi isso que escolhi como referência neste momento em que a astrofísica se centraliza novamente na história do cosmo. São as linhas da minha mão que me levam ao centro do mundo ou o centro do mundo que me leva às linhas da minha mão? Viver é a profanação do improvável, é um acontecimento aquático, um madrigal sussurado de longe. I have become so depressed by the fact of my mortality that I have decided to commit suicide. Na verdade, queremos apenas alguma serenidade. Já passamos dos trinta e sabemos que ela realmente se matou. Enforcou-se com um cadarço que arrancara de sua bota preta com a qual sempre caminhava pelo St. James Park refletindo sobre as questões de impasse e espera nas peças de Beckett. Os torturadores caminham de fraque pelo anfiteatro de cúmulos da inconsciência coletiva. Quem na verdade morresse tuberculoso e molambento, antes dos dezesseis anos, seria o único talvez a ter razão. Os outros se dilaceram entre si. Eles se vendem, são vendidos, eles se venderão para todo o sempre. Vivemos momentos nulos. Ainda assim, meu coração teima em bater. É a teima que preciso para continuar a construir locomotivas e acrobatas. Essa lua vermelha, debaixo de nuvens encardidas, essa eternidade que nos foge e que a tudo deita cor: você pega minha mão e diz: imagina se o mundo fosse uma cama e a gente pudesse andar de meia o tempo todo.

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns-PE, em 1973. É poeta. Publicou os livros de poemas Nominata morfina (2014), Equatorial (2014), A canção do vendedor de pipocas (2013), entre outros.

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