Ignorantia scientiae inimica – Rodrigo Fernandez Pinto

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Não dormia. Não se alimentava. As preces comunitárias (com os irmãos, para marcar as horas), também não as fazia. Não podia parar nem um minuto sequer. Ademais, como rezar em coro, se estava completamente só? Em setembro de 1348, a Peste Negra rompera no Mosteiro de Seiça. Em pouco mais de dois meses, ceifara cento e cinquenta religiosos. Apenas Bernardo sobrevivera.

Isolado no scriptorium do mosteiro, ele corria contra o tempo para terminar a última cópia restante no mundo do Apocalipse de Lorvão. De repente, um estrondo. E apareceu no céu o sinal: um enorme dragão vermelho com sete cabeças e dez chifres e com uma coroa em cada cabeça. Chamava-se Ignorantia. Com a cauda, a fera arrastou do céu a terça parte das estrelas e as jogou sobre a terra. Depois, parou diante do monge, a fim de destruir o livro logo que ficasse pronto.

Bernardo partiu a corrente que prendia o livro à mesa e chispou para a saída. Enfiou pelo vão estreito, desceu a escadaria do torreão e despontou no pátio do mosteiro. Fugiu em direção à mata, onde as árvores haviam preparado um abrigo para ele. O dragão bateu as asas de um lado a outro e levantou voo, cortando caminho entre os corvos agourentos, que, sabendo a desgraça, aproximavam-se em bando. Investiu para o firmamento, volteou no ar em tom de ameaça e começou a perseguir o fugitivo.

Perto de um curso d’água, Bernardo tropeçou numa falha do terreno e caiu. Torcera o pé. Ciente da impossibilidade da fuga, decidiu jogar o livro no córrego. Esperava que o dragão não arriscasse apagar o hálito de fogo por causa de um livro tão somente. De fato, o monstro fabuloso, irado, preferiu atacar o monge indefeso.

Caído de costas na relva, com a criatura a rasgar-lhe o peito, Bernardo ergueu os olhos para o alto. E concluiu, pouco antes de morrer, que no céu os corvos pareciam vírgulas obtusas, pausando brevemente o discurso das nuvens.

P. S.:As águas fluentes do riacho lavaram as páginas do Apocalipse de Lorvão. Carregaram a tinta fresca das letras e iluminuras correnteza abaixo, até uma aldeota distante, perdida no meio de um vale sem nome. Lá se disse, muito anos depois, que quem bebesse daquelas águas teria visões estranhas. E uma vontade incontrolável de fazer perguntas.

Rodrigo Fernandez Pinto nasceu em Olinda-PE, em 1976. É formado em Direito e Letras. Trabalha como professor de línguas no IFPE/Campus Caruaru. Foi um dos vencedores do 3º Concurso Osman Lins de Contos, promovido pela Fundação de Cultura Cidade do Recife, em 2007. Aventura-se tanto na prosa como na poesia.

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Sobre o autor

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