Necessita-se profissional do medo – Leonardo Villa-Forte

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O medo da coisa não é a coisa, é o medo.

É assim que entendemos o seu talento. Gostaríamos que você fizesse parte da nossa equipe. Aqueles que se apegam ao medo são extremamente úteis em situações nas quais a prevenção ganha importância. Esse é o nosso caso. Diante da atual situação do mercado, há dentro da empresa um grupo buscando inovações. Esse grupo nos leva a correr o risco de perdermos a nossa identidade. Precisamos continuar os mesmos. O público já nos conhece.

Com a equipe que temos aqui, talvez não seja possível conter essa onda de novidades. É aí que você entra. Sempre que um projeto apresentar qualquer grau de inovação, precisamos que você exponha, para nós e para os empregados, todas as razões pelas quais seria interessante nos recolhermos ao comportamento mais conservador possível, enjaulando o ímpeto daqueles que propõem mudanças. Ultimamente, você sabe, os empregados só têm falado em projetos inovadores. Uma praga! Qualquer tentativa dessas deve ser rechaçada. Não cabe mais a nós sermos os agentes inibidores. Eles já estão nos pressionando, e são muitos. Você circulará por todos os departamentos, como alguém do nível deles, e semeará a prudência e a contenção. Se seu trabalho for bem-sucedido, vamos manter as coisas como sempre foram. É de grande importância para nós podermos contar hoje com um medroso profissional.

Esperamos de você o medo pensado e o medo instintivo, todo tipo de medo infundado e carente de elaboração. Precisamos de qualquer sintoma que gere alerta. Se não houver razões, você as formulará posteriormente. Inovações não devem passar sem uma observação exigente, impiedosa – nossa intenção é que sejam inviabilizadas.

Fica a seu critério a utilização dos seus serviços fora do local e horário de trabalho. No entanto, a experiência mostra que o cultivo de pensamentos e ações livres, desimpedidos e empreendedores fora do local e horário de trabalho leva o profissional a baixar o rendimento do seu medo também durante o expediente. Para nós, a alta performance é necessária a todos, assim o aconselhamos a não se manter afastado do seu medo por muito tempo, exercendo-o sempre que houver oportunidade, seja no trabalho ou fora dele.

Em caso de necessidade, será destacada uma pessoa de confiança como sua colaboradora. Esta pessoa poderá, por exemplo, ajudá-lo a controlar seu medo de demissão, para que ele não comprometa seu rendimento e você trabalhe com afinco em seus relatórios e não se desvie da sua prioridade: contaminar as aspirações e iniciativas dos empregados com seu olhar clinicamente medroso. Caso seu trabalho não esteja ocorrendo da melhor maneira, essa mesma colaboradora o ajudará a não ter medo de vir à empresa ou de falar conosco, visto que esses são medos que afetariam diretamente – e negativamente, caso deixem de ser apenas medo e você de fato não apareça – a sua produtividade e, por consequência, a nossa. Nesse caso, teríamos de dispensá-lo, e quem sabe divulgar para terceiros a informação de que o senhor não exerce um medo profissional, mas um medo amador.

Seja bem-vindo. Trabalhemos juntos. O senhor será fundamental para a manutenção de nossa identidade.

Leonardo Villa-Forte nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 1985. Tem contos nas antologias Prêmio Off-FLIP 2009 e Veredas – Panorama do conto contemporâneo brasileiro, e nas revistas Pessoa (Brasil/Portugal), Litro e Modern Poetry in Translation (Inglaterra). É autor do MixLit – O DJ da Literatura e da intervenção urbana Paginário. Site: http://www.leonardovillaforte.com

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Sobre o autor

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