12 – Micheliny Verunschk

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Nada é o que parece quando visto de dentro. As palavras mudam de significado quando vistas de dentro e ganham amplidões desconhecidas quando pronunciadas, amplidões desconhecidas. E é justamente isso, H., eu queria dizer seu nome livremente, mas nada escapa, nada pode escapar daqui e nem mesmo o seu nome, ainda que só de sopro sussurrado, nem mesmo o seu nome pode.

Me mantiveram doze dias no isolamento. Eu poderia dizer que foi infernal, mas seriam lápis da mesma caixa de cor. 3X4, 12. 3+3+3+3, 12. 1+1+1+1+1+1+1+1+1+1+1+1, 12. Seria óbvio também falar de umidade, aperto, escuridão. Mas não posso falar em silêncio, você sabe, porque ele não existe e é inútil falar em insônia. Eu chovia em punhetas, mas matar o tempo não foi possível.

Quando me tiraram de lá, veio a luz. Ela doeu e me senti de novo em trabalho de parto, lançado fora da mãe. 6+6, 12. No fim das contas, o que importa é que doeu, H.

Isso pode ser uma fábula ou um cálculo. Vai depender das escolhas que serão feitas. A escolha está em tudo, no éden, nos círculos de luz da quarta esfera brilhante, no arcano 6 do tarô. 8+4, 12. É o número mais alto da roleta. A bala na agulha. Quantas pessoas fizeram a sua escolha por você? Quantas vezes você permitiu? E permitir foi também uma escolha, saiba. Os médicos alegam que quanto mais velhos fazemos a escolha, melhor para nós. Mas nós sabemos que quanto mais cedo melhor e nem dói tanto assim. Foram 12 os dias.

Abri minhas asas como um carro abre suas portas. Lágrimas da terceira esfera caíram no chão, H. Cristalinas no chão, quartzos no chão, diamantes no chão, chão escuro e encardido como uma ratazana de olhos vermelhos e dentes amarelos. Mas minhas asas continuavam limpas como no dia em que cheguei. Senti saudades de usá-las, H., e desculpe se parece que choro, mas asas são portas também.

Achei que eram dias, anos, séculos de isolamento e sei que tudo isso é lugar-comum. Desculpe, não consigo mais ser genial em tudo. Às vezes eu creio que será necessário criar uma nova língua, com uma gramática superestruturada em símbolos avançados para que eu possa entender quem eu sou, quem você é, quem são os outros fora de mim. Dopamina. Ele já destruiu as máquinas para não me pagar o que deve. Uma frase fora do contexto deve ter algum valor semiológico.

O ser da segunda esfera não entende como posso dizer os palavrões que aprendi com os homens sujos. Não entende como posso me espojar em sexo barato com prostitutas estrangeiras. 6X2, 12. Não há repugnância em nada. Nem no isolamento nem nos homens sujos, nem nas bocetas sorridentes. Não há nojo, H. , você me entende? Dopamina, neurotransmissores. Podemos elevar os níveis de serotonina no organismo só comendo chocolates e todos seriam mais felizes. Me trancaram na jaula por doze dias, H. Doze dias entre urina e bosta, mas isso não é nada. Isso realmente não é nada. Ouvi dizer que também chamam o isolamento de solitária. Mas você sabe que essa palavra não traduz bem a realidade, porque não é de solitária que estou falando. Havia comigo o Ser da Primeira Esfera do Círculo Brilhante, O Grande, e foi Ele quem ajudou a abrir minhas asas limpas e imaculadas. Ele massageou as articulações com a energia saída de suas mãos. Foi Ele que, no meio da compressão de tijolos e escuridão, me fez ver quem eu sou, quem eu nunca deixei de ser. Por isso nunca use a palavra solitária como porta, nem como asas, nem como o teu nome ou como as lágrimas que derramei nos rios da Babilônia.

Apaguei. Flashes coloridos. Um cheiro de extrato de tomate vindo da cozinha. Talvez fosse sopa. Não se deve comer maçãs no inferno, era assim que começava uma canção de que eu gostava muito.

Acho que me surraram antes de me jogarem no isolamento. Quando acordei tinha um gosto de terra na boca, que é o gosto de sangue do sangue da gente. Doíam as costas e o corpo todo. Devem ter me surrado e me drogado. Agora nada mais me quebra, H. Nada mais quebra a minha memória, a consciência de quem sou e de onde estou. E vou contar tudo a você porque é possível que eu nem saia vivo daqui, como também é possível que eu saia vivo e você nem me reconheça. É possível que eu saia daqui embrulhado num plástico cinza como uma barra de chocolate ou que eu saia vestido na glória dos círculos brilhantes e você me pergunte: Quem és tu, Senhor? E se assim for então não haverá nenhum Pedro para me negar. Então é isso, H., contarei a você o voto desses 12 dias, 10+2, 12. Dia por dia, a sua dor, sua glória.

Micheliny Verunschk nasceu em Recife-PE, 1972. É autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010), b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Petrobras Cultural). É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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Sobre o autor

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