Tudo quanto – Karla Linck

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Tudo mudou quando ele iniciou o seu novo ofício.

O resto da casa ficou nulo, esquecido diante da imensa janela da sala de jantar, que tendo medidas de tal proporção propiciava o conforto que exige um ambiente onde se precisa permanecer. Desde que deixara o emprego, perdera o hábito de sair às ruas. Mal podia lembrar-se de suas antigas ações rotineiras, pois já completara três anos que tudo havia mudado.

Os conhecidos, vizinhos e amigos não o podiam entender. Tentavam com um esforço vão demovê-lo de sua incompreensível mudança e davam-lhe extensos conselhos, que ele ouvia com dissimulada e paciente atenção. Foram, um a um, resignando-se, e passaram a se contentar com acenos entristecidos e saudosos quando cruzavam por acaso a rua em frente a sua casa, localizada num agitado vilarejo perto da praia.

Isadora, servil como era, nem ao menos questionou a decisão do marido. Relatava risonha aos poucos amigos que sobraram “Um dia ele não foi trabalhar, sentou-se em frente a janela e começou a contar.” E ele apenas contava. Contava os carros que passavam, os paralelepípedos das ruas, os azulejos das casas vizinhas, os passos dos pedestres, as flores estampadas nos vestidos das senhoras. No início sentia-se confuso e irritado, especialmente aos domingos, quando a festa na praça lhe dava tantas e tão intermináveis possibilidades que ele mal podia decidir-se. Com o passar dos meses, foi se aperfeiçoando e o tal ofício tornou-se para ele tarefa ágil como respirar. Podia fazer inúmeras contagens simultâneas e a prática desenvolvera suas habilidades seletivas a tão elevado grau que em matéria de distinções tornara-se genial.

Quando escolhia, por exemplo, contar sons, sabia distinguir entre ruídos de todos os tipos, de diferentes ritmos e volumes, que eram para ele tão claramente diversos que os números rapidamente se desenhavam à sua frente. Aprendera a distinguir frequências, amplitudes e timbres de variadas espécies, e fazia combinações musicais compondo melodias numéricas. Outras vezes contava cores. Escolhia matizes, montava brilhos e contrastes. Fazia consecutivas combinações cromáticas, às vezes ordenadas na disposição do arco-íris, às vezes selecionando apenas tons de ocre, cinza ou púrpura. Seu maior desafio e prazer consistiam, no entanto, em unir todos os sentidos formando uma composição que se movia agilmente à sua frente, salientada pelo extremismo de sua atenção. O mundo, como um coração exposto, tornou-se para ele a matéria mais viva de toda a vida que ele antes conhecera.

Isadora até gostava da excentricidade do marido que, abandonando o comércio de tecidos, fazia-lhe companhia o tempo todo. Como mulher dedicada que era, encarregava-se ela própria de presenteá-lo em dias de pouco movimento, chamando a frente de sua casa o carro de frutas para que ele pudesse com entusiasmo contar ameixas, uvas, pêssegos, maçãs ou até mesmo as falhas na madeira da carroça do vendedor. Fazia-lhe falta apenas que o marido dormisse com ela na cama, já que há três anos ele abandonara o quarto, onde nada mais havia para contar, e acomodara-se em uma cadeira ao lado da janela. Durante as outras horas do dia, ela sentava-se no sofá da sala, tricotando prazerosamente ou lendo em voz alta uma estória, enquanto ele contava os pontos da lã ou as sílabas que ela pronunciava.

O que Isadora não suspeitava era que, com o passar do tempo, a janela havia ficado pequena e que o homem, que aprimorou a sua arte, não mais suportava as restrições da moldura. Foi quando em um dia como outro qualquer, ela acordou e não viu mais o marido. Chamou a polícia, os bombeiros, os vizinhos. Mobilizou todo o vilarejo, que se empenhou solidário na busca sem obter sucesso. Era Isadora quem agora dormia na janela, com os olhos marejados à espera de alguém que se dispusesse a contar as suas lágrimas.

Alguns meses depois, em alto mar, foi encontrado um barco e nele havia um homem. Os olhos ainda fixos miravam ao longe as estrelas.

Karla Linck nasceu em Recife-PE, em 1975. Graduada em psicologia e design. Trabalha com diagramação no Diario de Pernambuco.

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