Antologia do Instante (Um livro sem futuro) – Samarone Lima

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“Melhor escuta aquele que anota”.
(Dante, Canto XV de A Divina Comédia)

Há muitos anos tenho o péssimo hábito de anotar tudo. Trechos de livros, pedaços de contos, romances, poemas, tudo o que me chame a atenção. Por conta disso, tenho centenas de cadernetinhas de vários tipos, cores, formatos, além de cadernos, agendas, pedacinhos de papel, que transformam o lugar em que vivo uma espécie de celebração ao papel – ou uma usina de reciclagem, como diz um amigo.

Nunca sei o que vou fazer com isso, mas há um tipo de anotação que já ficou muito conhecido entre meus amigos – a Antologia do Instante.

É uma coleção de frases e diálogos que têm um princípio fundamental – só podem ser anotadas no instante em que foram pronunciadas. Não vale citação. Tem que sair na inspiração fundamental, seja ela numa mesa de bar, dentro de um ônibus, na rua, alguém falando ao telefone etc. Os anônimos são presença constante.

Quando o Vacatussa disse que trabalharia nesta edição o tema “futuro”, encontrei uma forma de compartilhar com os leitores um livro que provavelmente vai demorar muito a ser publicado. Talvez nunca.

Mas quem sou eu, reles anotador, para dizer nunca sobre uma publicação?

O futuro como se sabe, zomba dos homens todos os dias…

Boa leitura.

Antologia do Instante

“Ele não pode vencer, porque ele é o ícone da derrota”, Marcelo Barreto, analisando uma possível vitória do piloto Rubens Barrichello na Fórmula 1

“Essa morena deu as celulites dela para nossas mulheres”, de um amigo, ao ver uma bela morena passar.

“Eu gosto do ser humano. Mas se for para escolher, eu prefiro que seja rico”, Edinho, Lindo Olhar, do bar Princesa Isabel.

“Essa música da tua vizinha é como usar sapato apertado”, Jorge Alberto, num dos raros almoços em minha casa.

“Naná, venha logo, porque você pode lavar o carro todo dia, mas enterro de Jorge é só uma vez na vida”, Lula Terra, apressando Naná para o enterro de nosso amigo, Jorge Alberto.

Diálogos extraordinários – I

Garçom – Temos frango desossado com ervas indianas.

Samarone – Que ervas indianas são essas?

Garçom – Coentro…

“Tudo é mentira, a vida é mentira. Estou na merda”, cliente do Princesa Isabel, tomando todas e pensando em voz alta.

 “A Shineray está vencendo o jegue em suaves prestações”, Lemingue

Diálogos extraordinários – II

Motorista – (cantando) “Eu queria ter na vida simplesmente/um quintal e mato verde…”

Cobrador – Quando tu morrer, tu vai ganhar teu pedaço de mato, visse?

Motorista – “Ter uma casinha branca de varanda…”

Cobrador – Vai ter é um ataúde branco, isso sim!

“Você pode não saber como chegar ao Taj-Mahal, mas à Sinfarma é fácil – fica no centro de Arcoverde”, comercial numa rádio em Arcoverde, em 25/5/2009.

“Eu só vim porque moro atrás do shopping”, uma das poucas pessoas que foi ao lançamento do livro A cabeça do futebol, que ajudei a editar, em um shopping em São Paulo.

“Eu sei viver sem mim mesmo, quanto mais sem ela”, de um amigo, respondendo se viveria sem sua mulher.

“Quem morre cedo, não tem tempo de gravar disco ruim”, Edmundo Glauber, falando da morte precoce de Chico Science.

“Isso não é uma mesa, é um indulto de Natal”, Otávio Toscano, ao se deparar com uma mesa cheia de amigos pilantras.

“Ele dava carinho como quem dava esmolas”, Lemingue.

 “Vou fundar a Igreja da Última Chamada. A Igreja da Última Chance. Será uma igreja rancorosa e o lema será: ‘Vem ou te fode pra lá!’”, Abdoral Lira.

 

Samarone Lima nasceu no Crato-CE em 1967 e mora no Recife. É jornalista e escritor. Publicou os livros (1998), Clamor (2003), Estuário (2005), Viagem ao Crepúsculo (2009), Tempo de Vidro e A Praça Azul (2012) e O aquário desenterrado (2013), pelo qual recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimarães.

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Sobre o autor

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