Peso ou mola – Nivaldo Tenório

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Domingo, acorda ao meio-dia, foi a mulher quem o chamou, é quase hora do almoço, mas ele não tem fome e deseja dormir.

– O que é que você tem?

Talvez esteja doente. Pensa na noite passada, que foi aquilo?

Soa a campainha. Deixa que eu atendo, ouve.

Termina de se pentear, no espelho a cara irremediável boceja.

O concunhado propõe um brinde. Ele não bebe uísque antes do almoço, mas não vai bancar o chato.

As irmãs os deixam a sós.

Não se sente à vontade com o Roberto, aliás, durante muito tempo não se sentiu à vontade quando saíam os quatro; sempre a mesma coisa: ele o intruso e ninguém interessado em mudar isso. Reclamou mais de uma vez. A esposa sorria. Você quer que a gente converse o quê?, perguntava enquanto o beijava. Achava aqueles três bobos, sempre trocando impressões de peças de teatro, ele não gostava de teatro, os atores o constrangiam, paciência, também estava só nas discussões, o mundo da arte não contrapunha a religião coisa nenhuma. Riam dele, chamavam-no católico, era católico sim senhor, não acreditava que a vida fosse só isso, é muito pouco e teatro nenhum vai preencher o vazio, às vezes achava que nem o trabalho conseguia, mas não pensava nisso, dedicar-se ao trabalho é o que tem de fazer, a família precisa dele, de outro modo como teria pagado o curso de medicina do filho? Vivia prometendo não sair mais, não se importava de ficar em casa nas noites de sexta vendo televisão.

Roberto e as irmãs se conheceram na faculdade, ele já ouviu a história de quando os três montaram uma chapa e disputaram as eleições para o diretório acadêmico, também ouviu sobre os esquetes em que atuaram e viagens que fizeram juntos etc. No final a formatura. Roberto foi conhecer o mundo, as duas se interessaram por música, de vez em quando alguém se lembra de tocar o demo. Depois o reencontro. Roberto e Amanda que começam uma relação colorida, afinal o casamento não estava em seus planos. Mas depois de um período complicado que incluiu aborto e tentativa de suicídio dela, os dois se casaram no civil. Os conheceu no fórum, onde foi apresentado como namorado da irmã da noiva, seu blazer sem combinar foi colocado às pressas depois que transaram no apartamento dela.

As irmãs se demoravam na cozinha.

– Cadê o doutor?

– Na casa da namorada.

Durante o almoço Marcela está desconfortável e Roberto constrangido com a mulher que insiste em encarar o prato. O mais que se ouve são talheres. Ele bebe uísque e sente que alguma coisa não está bem. O almoço estava ótimo, Roberto diz quando se despede. Ele os acompanha até a porta, Marcela desaparece no quarto. Lá passa a tarde.

O jornal de domingo ainda está na caixa do correio.

– Sobrou comida do almoço, ouve a voz da mulher.

– Que horas são, pergunta acordando do cochilo, no chão, debaixo da poltrona, o jornal espalhado.

– Aonde você vai?

– Falar com Amanda.

– Não vai me dizer o que está acontecendo?

 …

Sábado à noite não conseguiu dormir. Fechou a porta com cautela para não acordar a mulher. No corredor há um relógio de parede. Nunca se esqueceu de dar corda, mas alguma coisa vinha afetando as variações no movimento do pêndulo, 4 ou 5 graus, de modo que estava sempre adiantado. No trabalho, alguém lhe disse que para manter constante a amplitude do movimento é necessário compensar com um peso ou mola. Comparou com as horas marcadas no relógio de pulso. Uma hora adiantado.

A luz da sala estava acesa. Abriu a porta. Sua casa fica na parte alta da cidade. A noite estava bonita, não fossem alguns faróis de automóveis, a cidade dormia sem preocupação.

De repente algo quebrou o silêncio. Quem está aí?, gritou tomado pelo terror. Estava com medo, mas desceu os degraus. Lá embaixo tudo escuro. Por que não acendeu as luzes?, sua estupidez só deu ao outro mais vantagens. Esperou o pior, a qualquer momento iam cair em cima dele – sim, quem sabe mais de um – um enorme peso o esmagava e antecipava o choque. O invasor deve portar arma de fogo, vai entrar na casa e estuprar a mulher. Não tinha nada nas mãos, não tinha arma em casa. Segunda-feira vai comprar um revólver. Mas a segunda pertence ao outro, ele invadiu sua privacidade e, se aproveitando das sombras, progride resoluto.

 …

 Sexta-feira, quando acabou o expediente, ligou para a esposa, mas o telefone dela estava ocupado, devia estar falando com as amigas, contando do filho que se forma em medicina. Ele queria dar outra boa notícia. Os colegas o convidaram pra comemorar, não, ele não vai, queria correr pra casa, mas insistiram: que é isso, senhor diretor, um drinque de nada, de mais a mais, era sexta, sábado estava de folga, tudo bem, só ia tomar um. Tomou seis. O bar era vizinho do trabalho, às vezes precisou passar ali num término e outro de expediente, sozinho, a língua seca, depois de bater a meta do dia. Sabia que o desemprego já ultrapassa vinte e seis por cento na Espanha?

Chegou tarde. No quarto a esposa dormia, queria beijá-la, e não sabe se por efeito do uísque ou a certeza do futuro, o fato é que se sentia feliz. O mais feliz dos homens.

 

Nivaldo Tenório nasceu em 1970 em Garanhuns-PE. Publicou os livros A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça (2012), que ganhou nova edição em 2014 pela Confraria do Vento. Participou de antologias como Panorâmica do Conto em Pernambuco, Tempo Bom, Recife Conta o Natal e Osman Lins de Contos (2006).

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Sobre o autor

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