Rinaldo de Fernandes fala sobre Contos reunidos

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Ao folhear a primeira edição do recém-lançado Contos reunidos (Editora Novo Século), de Rinaldo de Fernandes, escritor, professor de literatura da UFPB e conhecido antologista, fica claro que estamos diante de um dos mais representativos autores da nossa ficção contemporânea. “Contista consumado”, afirmou a seu respeito Moacyr Scliar; “Mestre do conto”, conclui a professora Regina Zilberman. Os elogios não são gratuitos. Quem já leu contos como A poeira azul, O cavalo, Beleza ou A senhora do edifício, todos compilados nesta edição, vai encontrar narrativas construídas com fortes imagens, nas quais a vida cotidiana é representada por um olhar que mistura ironia e pitadas de absurdo. Para fazer um balanço de sua carreira, conversamos, por e-mail, com Fernandes a respeito da sua obra e da sua relação com a crítica.

CRISTHIANO AGUIAR | Rinaldo, você desponta como contista em especial a partir de 2005, com o lançamento de O perfume de Roberta. Você acaba de lançar seus contos reunidos pela Novo Século. Que balanço você faz da sua trajetória até aqui?

Rinaldo de Fernandes | O conto e o romance são as minhas formas de expressão literária. Não sei escrever poemas nem peças. Sou um narrador, sinto muito prazer em narrar. Tanto fico contente escrevendo contos como romances. No conto, trilho vários caminhos, me movo dentro dessa forma breve. Já escrevi contos mais longos, como Ilhado, citado por Marcelo Coelho, da Folha de S. Paulo, como integrando aquilo que ele chamou de “escola da literatura da violência”, cujo criador seria Rubem Fonseca, ou mesmo Beleza, com o qual venci em 2006 o tradicional Prêmio Nacional de Contos do Paraná, ainda agora o principal prêmio para o conto no Brasil, e também mini e microcontos. Os livros de contos me renderam reconhecimento da crítica, sobretudo livros como O perfume de Roberta (2005) e O professor de piano (2010). Ao posfaciar este último, Regina Zilberman, a partir de uma leitura criteriosa dos 11 contos do livro, me atribuiu o título de “Mestre do conto” (aliás, título do posfácio dela). Fiquei honrado com o título, sobretudo porque veio de uma das pessoas mais sérias neste país no campo dos estudos literários. E fiquei mais honrado ainda por Regina Zilberman me atribuir o título a partir de um critério rigorosamente crítico. Creio, assim, que o balanço é positivo.

CA | Qual critério norteou a escolha dos seus contos reunidos? O que, por exemplo, teve que ficar de fora, e por quê?

RdF | O critério básico foi mesmo juntar todos os contos dos meus quatro livros: O perfume de Roberta (2005), O professor de piano (2010), Confidências de um amante quase idiota (2013) e uma seleção de textos de O livro dos 1001 microcontos (este último um projeto de escrita criativa que desenvolvo no facebook desde 2013). Fiz revisão rigorosa dos textos, sobretudo do livro Confidências de um amante quase idiota. A coletânea traz também 18 estudos críticos sobre os contos – são artigos de autores como Regina Zilberman, Luís Augusto Fischer, Moacyr Scliar, José Castello, Mário Chamie, Nelson de Oliveira, Cristhiano Aguiar, Paulo Krauss, Eduardo Sabino, Renato Tardivo, entre outros.

CA | Sua fortuna crítica já é considerável. Como é sua relação com a crítica literária? Você, por exemplo, debate com seus críticos possíveis discordâncias a respeito da leitura que eles fazem da sua obra?

RdF | De fato, já há uma fortuna crítica considerável sobre meus contos e meus romances. Acompanho de perto a produção de contos no Brasil, já organizei coletâneas como Contos cruéis, Capitu mandou flores, 50 versões de amor e prazer e Quartas histórias (as três primeiras saíram pela Geração Editorial e a última, pela Garamond). Por acompanhar de perto essa produção e por também exercer a crítica (mantenho há dez anos uma coluna de crítica no jornal Rascunho, de Curtiba) é que sei que hoje eu sou no país um dos contistas mais estudados de minha geração (que é aquela que despontou nos anos 90). Além de resenhas e ensaios, já foram produzidas inúmeras monografias, dissertações e um doutorado sobre meus contos. Não costumo rebater críticas – a não ser que sejam imprecisas, destoantes totalmente da obra (isso só aconteceu comigo uma vez, com um crítico da Folha de S. Paulo). Os meus debates são públicos, normalmente em eventos acadêmicos – e sempre tem algum pesquisador de minha obra presente. Creio que é o debate mais salutar. A professora e pesquisadora Gloria Maria Oliveira Gama, que fez seu doutorado sobre contos do meu livro O perfume de Roberta, estabeleceu um diálogo importante – fez uma longa entrevista comigo, a qual consta de sua tese, me procurou em alguns momentos da produção de seu trabalho para me fazer perguntas acerca da escrita de certos contos, acerca do meu processo criativo, etc. Creio que foi um diálogo enriquecedor, tanto para mim como para ela.

CA | Ao comentar seu conto O perfume de Roberta, o crítico José Castello afirma que você pratica “um realismo sem ilusões”. Poderia comentar isso?

RdF | Esse comentário do Castello consta da seção de estudos críticos do Contos reunidos. De fato, sou sobretudo um escritor realista – bebi na fonte de autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, entre outros. Só alguns contos meus têm um andamento fantástico, à la Cortázar (autor que eu gosto muito e que sempre releio). O conto O perfume de Roberta, que José Castello comenta, se passa na cidade de São Paulo, numa madrugada fria, e envolve um advogado de classe média alta e uma adolescente moradora de rua. O advogado tem uma fantasia sexual e a pratica com a adolescente, num rito nada habitual – ele, antes das sessões de sexo, põe a roupa e passa o perfume da filha na adolescente. A forma como isso é narrado é crua, direta, sem concessões. O meu modo de narrar, em especial nos contos que tratam de violência, como Duas margens, Pássaros, O último segredo e Você não quis um poeta, é muito duro, implacável. Creio que é a isso que José Castello se refere.

CA | Nos seus últimos dois livros de contos, sua escrita tem se inclinado a trabalhar com o microconto, ou ao menos com contos mais curtos do que os anteriores. Por que a mudança?

RdF | É, houve mesmo uma mudança de rumo. Curiosamente, eu venho escrevendo micro e minicontos – e romances. Forma brevíssima e forma extensa. Sempre pratiquei as várias formas do conto, desde o meu primeiro livro, intitulado O caçador (cujos contos, em sua quase totalidade, migraram para os livros posteriores). Já nesse livro, de 1997, eu misturo contos com minicontos e até microcontos. Realmente, não consegui mais escrever um conto como Beleza ou mesmo como Dois buracos para os meus olhos (que se passa no carnaval de Olinda e que está sendo roteirizado para virar um longa-metragem do cineasta pernambucano David Sobel). A safra não está mesmo boa para contos. Mas prossigo narrando – escrevendo micro e minicontos e trilhando os caminhos áridos do romance.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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