Romance do bordado e da pantera negra – Raimundo Carrero, Ariano Suassuna

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PRÓLOGO

Autores: Raimundo Carrero (Salgueiro-PE, 1947). Recebeu o Prêmio APCA, o Prêmio Jabuti (categoria Crônicas e Contos), o Prêmio São Paulo de Literatura e dois prêmios Machado de Assis, concedidos pela Fundação Biblioteca Nacional.

Ariano Suassuna (João Pessoa-PB, 1927-2014). Escritor e dramaturgo. Criou o Movimento Armorial, é autor de O Auto da Compadecida e O Romance d’A Pedra do Reino. Ocupou a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.

Livro: Romance do bordado e da pantera reúne o conto O bordado, a pantera negra de Raimundo Carrero e o cordel Romance do bordado e da pantera negra de Ariano Suassuna, que foi inspirado pela história de Carrero. A edição traz prefácio de Carrero e ilustrações de Marcelo Soares.

Tema e Enredo: As histórias contam o caso de Conceição e o vaqueiro Elesbão, que se deparam com o demônio Simão Bugre.

Forma: O conto de Raimundo Carrero foi escrito na época em que ele integrava o Movimento Armorial e reúne elementos como a temática rural e o recurso do fantástico. A partir desses mesmos elementos, o cordel de Ariano é estruturado em sextilhas, seis versos por estrofe.

CRÍTICA

Contraste entre mestre e discípulo

Na Indústria Cultural, quando o nome de um artista atinge certo status, sua assinatura vira um rótulo, passa a ser utilizada como atestado de qualidade que legitima determinada obra ou produto. No mercado editorial, isso se traduz na profusão de lançamentos de livros póstumos, manuscritos deixados na gaveta, obras inconclusas e versões diferentes de uma obra já consagrada. O que aparentemente só interessaria a pesquisadores ou aos fãs mais perseverantes, transforma-se em produto com a chancela do selo de qualidade da assinatura desse autor, mesmo que isso não venha a se confirmar durante a leitura do livro em questão.

Caso recente disso é o lançamento de Romance do bordado e da pantera negra, publicação da Iluminuras que se apoia mais em fatores externos do que literários. Amparando-se nos pilares dos nomes de Raimundo Carrero e Ariano Suassuna, no fato de ter sido lançado no encalço da morte de Ariano Suassuna em julho de 2014 (embora fosse um projeto antigo, já divulgado por Raimundo Carrero há alguns anos) e no interesse que há sempre sobre uma obra perdida, redescoberta 30 anos depois; o livro, de fato, aparenta ser um produto justificável do ponto de vista mercadológico.

No âmbito literário, porém, a leitura do conto O bordado, a pantera negra de Raimundo Carrero e o cordel Romance do bordado e da pantera negra, escrito por Ariano Suassuna a partir do conto do seu discípulo pernambucano; revela uma face menos expressiva daquilo que o nome dos dois autores hoje representa.

Escrito em 1970 (cinco anos antes de A história de Bernarda Soledade – a tigre do sertão, que marcou a estreia do autor), o conto aponta, naturalmente, para um Raimundo Carrero ainda imaturo. Conhecido pelo rigor técnico que emprega em seus livros, mesmo que se leve em consideração a fase inicial de sua obra, Carrero aparece confuso na alternância dos tempos narrativos, inconsistente na construção dos personagens e na cadência das cenas do conto O bordado, a pantera negra.

Um sintoma que é ressaltado pela justaposição do cordel de Ariano Suassuna. Se o conto de Raimundo Carrero suscita dúvidas sobre a ordem dos fatos e a relação entre os três personagens; a estrutura linear adotada por Ariano Suassuna imprime uma organização temporal que confere mais clareza aos fatos narrados e as motivações dos personagens, apesar da preocupação com a métrica e as rimas impostas pelo cordel. No entanto, a se considerar o legado de Ariano Suassuna, o Romance do bordado e da pantera negra parece ser mais um exercício para apoiar o discípulo e pouco acrescenta à sua obra.

Ainda assim, apesar desses problemas, o livro tem sua relevância, a se considerar um público formado por pesquisadores e leitores mais interessados na obra de Raimundo Carrero. Primeiro por conta do prefácio escrito pelo autor, onde ele faz uma interessante distinção entre o Regionalismo e o Movimento Armorial. Segundo, por expor o salto dado por Carrero nos cinco anos que separam O bordado, a pantera negra e A história de Bernarda Soledade. Terceiro, por trazer de volta um Raimundo Carrero mais narrativo, quebrando a atual sequência de romances excessivamente técnicos. Quarto, por deixar mais clara a relação entre o mestre Ariano Suassuna e o discípulo Raimundo Carrero. E, por último, por revelar, desde o início, o interesse de Carrero em subverter o tempo narrativo, que viria a se concretizar de forma mais consistente na alternância de presente e passado já em A história de Bernarda Soledade e, anos mais tarde, no cubismo literário das obras mais recentes.

Relido em fevereiro de 2015
Escrito em 02.03.2015


Relação com os autores: Próxima. Fui aluno da Oficina de Carrero e depois, como jornalista, nos mantivemos sempre em contato para entrevistas e matérias. Em relação a Ariano, cheguei a entrevista-lo algumas vezes quando ele foi secretário da Cultura de Eduardo Campos no Governo de Pernambuco.

FICHA TÉCNICA

Romance do bordado e da pantera negra
Raimundo Carrero e Ariano Suassuna
Editora: Iluminuras
1ª edição, 2014
64 páginas

TRECHO

“Simão Bugre apalpa a arma. Os cabelos de fios ásperos descem, molhados, pelos ombros. Os pés de animal esmagam as pedras. O primeiro trovão confunde-se com o relinchar de um cavalo e com o estrondar do vento. É preciso apressar o passo para chegar logo à serra.” (p. 22)

EPÍLOGO

Rural

O livro faz parte da fase armorial da obra de Carrero, que tem como característica o cenário rural, uso de elementos fantásticos e uma busca pelo sotaque sertanejo.

OUTRAS OPINIÕES

José Castello, na Gazeta do Povo, em 15 de novembro de 2014

(http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/colunistas/jose-castello/espelhos-de-sangue-eg7hrc6vlt4ad2rygxr5iokem)

“Trata-se, antes de tudo, da força das imagens — o que, aliás, é uma característica dos brasões — conjunto de figuras e de ornatos que compõem a alma de uma família, ou de um Estado. Quando não é simples reflexo das coisas do mundo, mas, em vez disso, se oferece como chama que acende o imaginário, a ficção encontra seu verdadeiro destino: o de emprestar vida a coisas que, sem ela, e embora vivas ainda, guardam a aparência de mortas. É na própria narrativa que o mundo se encorpa e se amplia.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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