Rua Cloverfield, 10

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Os filmes dirigidos ou produzidos por J.J. Abrams compartilham algumas características boas e instigantes no mercado de cinema contemporâneo. Abrams é conhecido por obras baseadas na publicidade do mistério, liberando poucas informações intrigantes em momentos específicos da fase de divulgação – dados que quando vistos no cinema costumam ser maiores do que o esperado; um pouco como prazeres gordurosos de bom cinema de suspense e terror.

Foi assim com Cloverfield (2008), Super 8 (2011) e Lost (2004): filmes e séries que são como caixas de surpresa, em que cada nova cena parece cativar pela forma como sustos e surpresas são peças de uma engrenagem realmente excitante. Estreia agora Rua Cloverfield, 10, que apesar do nome compartilha pouco com o filme anterior; ou, nas palavras de Abrams, são “parentes de sangue” e podem, caso as sequências que ele planeja sejam realizadas, “ser muito boas e conectar algumas histórias”.

O filme, que é dirigido pelo estreante Dan Trachtenberg, surpreende pela maneira minimalista como apresenta um enredo de mistério e tensão. A história começa com Michelle (Mary Elizabeth Winstead) fugindo do seu passado, deixando uma aliança em cima da mesa. Enquanto dirige sem rumo, recebe ligações de um tal Ben, que diz que foi só uma briga e que ela deve voltar. Ocorre então o primeiro choque: uma batida espetacular deixa Michelle inconsciente e os créditos iniciais ajudam a insinuar a atmosfera geral de estranheza.

Ela desperta acorrentada num bunker, com a perna machucada, celular sem sinal; recebe informações truncadas de Howard (John Goodman), homem que diz que salvou sua vida: o mundo não é mais o mesmo depois de um ataque, o ar está contaminado, todos morreram e por isso eles precisam ficar confinados um ou dois anos no local até tudo se dissipar. Há mais uma pessoa no bunker, Emmett (John Gallagher Jr.), que diz que assim que os ataques começaram, correu para o endereço de Howard, que conhecia por ter ajudado a construir.

O roteiro evita confrontar as perguntas mais óbvias nos primeiros minutos, mas indicações espalhadas ao longo do enredo sugerem que há algo errado no mundo exterior, embora ninguém confirme a real medida da ameaça. Algumas boas sequências de alta tensão insinuam o que pode estar ocorrendo lá fora e o desataque vai para a direção de Trachtenberg, que opera edição de som e imagem de forma espetacular, enfatizando através da montagem o gradual sentimento de que o pior está por vir.

É um enredo que parece se sustentar no trabalho dos atores; primeiro, há uma protagonista que, diferente de outros filmes de suspense ou horror, não é idiota; na verdade, Michelle é inteligente, não tropeça quando está correndo, toma decisões corretas nos momentos difíceis. Por causa disso a resposta natural é torcer por ela, desejar, com ansiedade e possivelmente trincando dentes e prendendo a respiração, o sucesso dos planos de fuga que surgem nos momentos mais tensos do filme – envolvimento emocional que indica o sucesso de uma construção metódica.

O outro pilar é Howard, personagem no limite entre loucura e uma espécie perturbante de afeto. Ele repete com segurança que salvou Michele de um ataque, que o mundo normal acabou, e fica cada vez mais difícil discernir fatos e distúrbios de uma mente perigosa. Através desses personagens o filme parece sugerir uma revisão na definição de monstro, no que realmente significa a ausência de humanidade. Diferente de Cloverfield, este é menos um filme de ficção científica e mais um suspense minimalista – embora existam pontos de contato evidente entre os filmes -, sobre reações humanas diante da crise.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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