A rua do padre inglês – Everardo Norões

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PRÓLOGO

Autor: Everardo Norões nasceu em 1944, no Crato-CE. Escritor radicado em Pernambuco, viveu na França, Argélia e Moçambique. É autor, entre outros, dos livros de poesia: Poemas argelinos (1981), Poemas (2000), A rua do padre inglês (2006), Retábulo de Jerônimo Bosch (2008), Poeiras na réstia (2010) e Entre Moscas (2013), pelo qual venceu o Prêmio Portugal Telecom na categoria contos. Organizou a obra completa de Joaquim Cardozo (2010). Tradutor, organizou antologia de poesia peruana, do poeta mexicano Carlos Pellicer, do poeta italiano Emilio Coco e de poetas franceses contemporâneos.

Livro: Publicado em 2006, A rua do padre inglês integra a Coleção Guizos, da editora 7Letras, na companhia de livros como Primeiro as coisas morrem, de Diego Vinhas, Restos & estrelas & fraturas, de Afonso Henriques Neto e Distância, de Virna Teixeira.

Tema e Enredo: Silêncio, Ruínas, Pedras, Luz e Escuridão: palavra poética e memória. Os poemas trazem notícias tanto de gestos miúdos, como lavar pratos, quanto do imenso do céu e do sol e das ruminações da atividade literária nas fronteiras do universo.

Forma: O livro está dividido em três partes: Lavador de pratos (27 poemas), A rua do padre inglês (5 poemas) e Nuvens (30 poemas). Há presença de sujeitos líricos na maior parte dos poemas. O livro deixa entrever um lirismo que perambula entre “casa”, “cidade” e “universo”, camadas da memória acesa na pele.

CRÍTICA

O chão da memória: corpo, cidade e o breu do universo

Temos cinco peles: a epiderme, a roupa, a casa, a cultura e o planeta. Em linhas gerais, ao menos, esta é a ideia do artista e arquiteto austríaco Friedensreich Hundertwasser. Somos sujeitos em trânsito constante, ora mergulhando fundo no desvão mais íntimo das histórias de nosso sangue, ora perscrutando os movimentos das estrelas e dos pássaros. Talvez ainda mais: somos sujeitos misturando fragmentos de nossa voz aos múltiplos barulhos das dinâmicas cósmicas. “Um mínimo do que sou/ lembra as fronteiras/ do Universo”.

Nosso canto nasceu em comunicação com o uivo, já tivemos ouvido para ouvir o que dizem as muitas águas dos rios. Nossos passos em volta do fogo, nosso afago em cada pedra que vamos recolhendo, em silêncio, nesta caminhada sobre o chão da memória. Anicca: apesar da impermanência, ou justamente por conta desta força entrópica que tudo engole, nos encantamos com as sombras, nos divertimos e choramos com as sobras do vivido ou o que chamamos de memória. “No desconserto das engrenagens,/ grimpam-se peças, rangem/ os rolamentos da memória:/ na vasta mecânica das estrelas/ some uma folha do calendário.”

Escrever poemas é empilhar pedras, trabalho em busca de equilíbrio, exercício de respiração. Escrever poemas é jogar as pedras da memória nas janelas fechadas pelos hábitos, pelos olhos cansados, é abrir uma fresta no telhado para que entre, nos queime, cegue e ilumine, uma réstia de sol. Ler poemas é atravessar cidades, ser miniaturizado para realizar uma viagem dentro do corpo do outro, ser transformado num gigante para dar um soco no estômago do céu. Para que assim “o céu brilhasse, entre as areias,/ nas cinzas de teus ossos.”.

Estes três trechos entre aspas são versos de poemas do livro A rua do padre inglês, do Everardo Norões, publicado em 2006, pela editora 7 Letras, na coleção Guizos. Nos últimos dias, perambulei entre os poemas destes mapas desenhados pelo poeta. Uma deambulação encharcada de sol, aprendendo a ruminar o sussurro das palavras ásperas das ruínas, colhendo o silêncio pela raiz, trazendo pedras de luz e sombra para dentro de casa, para dentro das páginas do sonho. Pude observar os restos, as fraturas e as estrelas todas grudadas no pequeno corpo de um sujeito lírico abismado pelo cotidiano, humano aberto para a sabedoria das coisas miúdas, atento ao bailado da poeira e ao vinho das visões. Com a leitura dos registros e inscrições deste sujeito lírico pude cevar as veredas dos loucos, os transbordamentos noturnos das aves feridas e iluminadas do imenso.

A rua do padre inglês está dividido em três partes: Lavador de pratos, A rua do padre inglês e Nuvens. São vinte e sete, cinco e trinta poemas, respectivamente. Os títulos de cada parte são os títulos dos poemas de abertura de cada seção. Não é fortuito que o título do trecho com menor quantidade de poemas seja utilizado para dar nome ao conjunto. Este gesto parece anotar, desde o início, a consideração pelo diminuto ao mesmo tempo em que enfatiza a importância das mediações. A rua do padre inglês é posterior ao Lavador de pratos e antecede as Nuvens, ligando uma seção à outra.

Embora não seja um princípio de ferro, inequívoco, pois percebemos deslizamentos, infiltrações e fricções de uma pele noutra, podemos organizar a percepção de cada seção partindo da ideia de Hundertwasser sobre as peles de que somos feitos. Em “Lavador de pratos” temos a ocasião de encontrar figuras de interioridade, elementos do corpo e da casa: louças, telhas, janelas, mãos, pés, cabeças, mesas, espelhos, gavetas. A certa altura “tudo dói/ na solidão desta Casa” e “A noite/ desaba sobre as telhas/ na explosão de um meteoro.” Há os “duendes da faiança”, ouvimos que “as rãs se esconderam nas gavetas” e ficamos a saber que existe “entre aranhas e peixes,/ a trama do tapete;/ na porcelana do vaso,/ a vista do acaso.” E num registro sutil, o sujeito lírico nos diz: “Respiro/ entre as penas/ o agora desse afago/ enquanto minhas mãos/ despejam/ seu pequeno corpo/ no abismo dos dias.”

A iniciação deste sujeito lírico é um processo de autoconhecimento, de descoberta do seu corpo imediato seguido pelos corpos alheios e pelo acolhimento e estranhamento proporcionado nos ambientes domésticos, numa preparação para as caminhadas a céu aberto, na rua, por cemitérios e debaixo do sol. O êxtase, este sair de si inscrito na experiência poética, não exclui os gestos simples, como lavar pratos. Como já nos disse o professor budista Jack Kornfield: “Depois do êxtase, lave a roupa suja”. E ainda: “a maioria dos relatos espirituais termina com a iluminação. Mas que tal perguntar o que acontece depois? O que acontece quando o mestre zen volta para casa, para junto da mulher e dos filhos?”.

O sujeito lírico em A rua do padre inglês está em permanente movimento. Não se enterra em si mesmo, nem se esconde num aposento supostamente imune aos delírios da cidade, ao cheiro de gasolina, às irrupções da morte, aos passeios dos tigres nas florestas da noite e às lonjuras de dentro do vasto céu. Há no Recife uma “Rua do Padre Inglês”, no bairro da Boa Vista. Dizem que no século XIX um pastor anglicano residiu na área, onde havia também um sanatório.

No poema que dá título ao livro e à seção intermediária, lemos: “Na rua do Padre Inglês/ um louco joga xadrez.// joga o xadrez da desgraça:/ uma sombra na vidraça/ é o seu parceiro demente.” Há um movimento de observação e busca da nudez das coisas, um caderno de anotações de campo em que o sujeito lírico continua a jornada de aprendizado a partir do diálogo entre contrários: dentro e fora, luz e sombra, céu e chão. Tudo costurado pelo exercício para manter a brasa da lembrança (de si, da cidade, dos outros) acesa: “Nos desertos da memória:/ a rua, o poste, a calçada”. O sujeito lírico atravessa a rua e é atravessado pela cidade: os cheiros, os rios podres, seus bancos, suas putas, suas igrejas e cemitérios, as manchas de merda na calçada.

Vozes, quinto poema da seção A rua do padre inglês nos dá a chave para compreender um pouco o que ouviremos das nuvens que veremos dançar sobre nossas cabeças. “Vozes ecoam na língua que não falo”. Aqui nos visitam os mortos ou nós visitamos suas habitações: “As roupas encardidas adormecem/ num recanto do quarto de visitas./ A torneira da pia escorre lenta./ Sobre a mesa a garrafa de água benta// O hóspede já se foi, há muito tempo./ (Um punhal adormece na gaveta).” O sujeito lírico não está só e se questiona sobre a existência: “Diante de mim/ há sempre o outro/ a perguntar-me:/ O que será de ti?”, lemos na abertura de um dos pontos mais altos do livro, o poema “As réstias do muxarabiê”.

As nuvens são palavras, as nuvens são os outros. Na última parte do livro, Nuvens, vemos a maior presença desses outros já intuídos nos delírios domésticos e nos passeios e contemplações das paisagens. Comparecem nominalmente no corpo dos poemas, entre outros: Tristão, Coubert, Villon, o mártir e poeta sufi El Hallaj, a cantora egípcia Oum Kalsoum. Podemos traçar um paralelo com a computação em nuvem, dizendo que esta seção apresenta poemas em nuvem para favorecer a utilização da memória e a capacidade de armazenamento. Essa ida ao encontro do outro, a partir do poema, é também um mergulho em si mesmo, é também atravessar as cidades. Poema em nuvem: acolhimento da luz e da obscuridade, águas em suspensão, poeira que se eleva do solo, encontrar na pele do outro o ouro.

O sujeito lírico é guiado pela ideia de integração e mistura, de borramento das fronteiras entre o eu e o outro: “o som da tua voz na minha fala”, lemos no poema A construção. É do encontro de almas que poderemos arrancar poemas. É uma aposta: a poesia como mediação, ponte. O poema configurado como uma busca para ligar os pontos que podem nos conectar, nos irmanar, fornecer sentidos para nossa vida em comum. Nossa ida incomum a “um espaço desnudo, sem história” é uma atividade de recuperação da ideia de união mística, desencadeada pela memória, num sentido que engloba tantos os delírios de deus quanto nossos gestos mais prosaicos e o movimento da paisagem animada.

Derramar água no chão da memória para encontrar uma semente perdida. Fazer nascer, da escuta do silêncio, uma música que faça dançar nossos corpos, nossas casas, nossos talheres, sapatos, roupas; uma música que ponha de pé os mortos e permita que nos olhemos nos olhos, partilhemos o espanto, o canto e as notícias dos escombros. Os poemas de Everardo Norões, com suas dicções graves e solenes, mas de maneira alguma afastadas do mundo, nos colocam em contato com muitas peles, criam muitos elos entre nossas carcaças e as praças do mundo, entre nossos passos nas salas vazias e os sonhos debaixo do céu aberto.

Há muito a descobrir no sangue destes poemas. Relações sensíveis em que o sujeito lírico se coloca ao trazer no peito os abismos das dúvidas existenciais, a concretude das pequenas coisas. Uma jornada através dos territórios pequeninos dos bolsos abertos da mente, entre os aposentos da casa, as ruas e a amplidão do mundo, ouvindo a respiração da multiplicidade das alteridades. Há uma epifania em janelas que cospem luz e em “coisas distantes/ que nos aguardam à mesa:/ o leite, o bule, o café,/ o sono, a morte, a incerteza.” Existe nos poemas de “A rua do padre inglês” uma transcendência que nos ocupa aqui mesmo no chão, que nos leva para longe sem nos tirar os pés do solo: uma transcendência que nos faz caminhar. Descobertas e despertares nos aproximam de alguma carne da realidade, mas também passam. Continuamos precisando de atenção para atravessar a rua. Aqui, o poeta talvez nos diga: “o que parece passar, /permanece”. Eternidade é passagem, nossa pele.

Lido em Dezembro de 2014
Escrito em 15.12.2014


José Juva é poeta, jornalista, artista visual e educador. Formado em jornalismo, mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco. Membro-fundador do coletivo casa de marimbondo (com o qual foi premiado em eventos de arte contemporânea pelos trabalhos A Porta, da pós-utopia, A máquina de escrever azul, entre outros). Premiado com bolsas de incentivo à formação pelo Centro de Formação em Artes Visuais (CFAV) pelas oficinas A imagem, a verdade e outros bichos e Nomes múltiplos: bando de artistas. Publicou os livros de crítica Deixe a visão chegar: a poética xamânica de Roberto Piva e Breve Breu – escritos sobre literatura & cinema e o livro de poemas vupa. Edita a revista de artes Macaco Encruzilhada.

FICHA TÉCNICA

A rua do padre inglês
Everardo Norões
7 Letras
1ª edição 2006
102 p.

TRECHO

“Diante de mim
há sempre o outro
a perguntar-me:
O que será de ti?

O que será de mim
no sossego dessas praças mortas,
na angústia dos estacionamentos,
no frio das salas de espera,
quando o outro,
o sempre múltiplo,
pergunta:
O que será de ti?

O que será de mim
quando os besouros esquecerem
as lâmpadas dos postes
ou o vento passar sem varrer nossas cinzas?”, (poema: As réstias do muxarabiê)

OUTRAS OPINIÕES

Luiz Carlos Monteiro, na Revista Continente, em junho de 2006

(http://www.revistacontinente.com.br/index.php/component/content/article/2237.html)

“Norões carrega influências de 45, sendo Mauro Mota o poeta com quem mais dialoga, e de quem adquiriu certa maneira de empregar verbos e vocábulos onde hiberna ou se liberta a ação, e com quem divide a dicção grave que leva a uma retórica bastante reconhecível e centrada na realidade prosaica de um cotidiano encontrável mais no passado que no agora. Náusea Matinal se destaca como um bom representante da fala solene que atravessa muitos poemas do livro: “Restos de falas na mesa/ e a náusea matinal./ O bule, a xícara, os copos./ A mão, submersa no sal,// da tarde, na planície,/ tão clara, dessa mesa,/ onde deslizam os repastos/ da habitual tristeza// que cobre a toalha branca/ de rendas. E essa fome,/ bordada sobre a mesa/ como as iniciais de um nome.// O jarro, com flores e/ as cinzas do outro dia,/ fugindo aos arabescos/ das rendas, tão frias,// como as coisas distantes/ que nos aguardam à mesa:// o leite, o bule, o café,/ o sono, a morte, a incerteza.””

Cristiano Ramos, no blog Sexta Cultural, em 16 de abril de 2008.

(http://acervodasexta.blogspot.com.br/2008/04/tnbreuse-unit-de-uma-poesia-alm.html)

“Uma proposta perpassa todo o livro: recuperar o sentido poético da transcendência. Não aquela de uma conservadora burguesia inglesa imersa em misticismo em pleno século XIX, mas a transcendência clássica, em que estética e filosofia não se deixam reduzir a efêmeros empreendimentos. Os versos de Everardo Norões querem mais, buscam além. Embora nunca uma criação distanciada da paisagem ou dos dramas que a circundam.”

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