Ruído branco

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Dia desses eu entrei no meu e-mail e janelas do bate-papo se abriram espontaneamente, sem que alguém estivesse puxando assunto comigo. Às vezes acontece. Estamos conversando, precisamos sair e nossos interlocutores deixam mensagens ali para a gente ler mais tarde. No entanto, algumas das conversas tinham sido realizadas em 2013 e 2014; havia duas de 2015, porém de meses atrás. Os rostos das pessoas me eram conhecidos; já as frases em negrito, exigindo atenção… Até agora não faço ideia do que se tratavam. Mexi na barra de rolagem de cada chat à procura de uma maior contextualização. Não obtive esclarecimentos, porque havia poucas frases trocadas dentro de cada janela – creio que o programa do email simplesmente recortou conversas aleatórias e as jogou na minha cara. Meio fantasmagórico, não é? Ou talvez não seja. Afinal de contas, provavelmente porque tenha lido demais contos de terror protagonizados por musas pálidas, perdidas com seus vestidos esvoaçantes em castelos mal-assombrados, acabo achando tudo ao meio redor meio esquisito mesmo.

Calhou desses últimos dias eu estar no Recife, reencontrando os amigos e não amigos. Uma vez a cada ano, geralmente em julho, há um conjunto de dias na cidade nos quais o contrato bíblico narrado no Gênesis, em que Jeová se compromete com Noé a não destruir o mundo outra vez através do dilúvio, parece ter sido revogado (outras formas de Apocalipse, tais como invasões alienígenas, meteoros gigantes, robôs que se rebelam contra a humanidade, ou Godzillas, não estão incluídas no contrato, claro). Recife fica impraticável: alagamentos, postes e árvores caídos, engarrafamentos, deslizamentos de casas. Me hospedei pela cidade, vindo da imaginária Brasília, exatamente nesses fatídicos dias. No segundo dia de chuva, acordei tarde e contemplei, através das amplas janelas do apartamento onde me hospedava, lá na rua da União, o centro do Recife todo tomado por uma espécie de grinalda; o céu não estava cinzento, porém branco; caía tanta água e tanta luminosidade se acumulava por cima da tempestade, que a cidade parecia a ponto de se apagar a qualquer instante.

Infelizmente, logo a chuva deu tréguas e tudo voltou a uma razoável condição de segurança. Foi justo nessa hora que abri o email e dei de cara com as conversas incompletas. Ainda sob os efeitos da chuva, observei todas aquelas frases inexplicáveis. Qual era o tema? Aonde queríamos chegar? Em uma conversa, cada palavra que dizemos ao outro esconde atrás de si outras palavras e sentidos. Toda conversa é um jogo duplo e é bom que assim seja. Sinceridade sem mediações é sempre uma violência; o excesso de transparência interior nos deixará mais exauridos do que o volume morto do estado de São Paulo. Todas as formas de narrativa gostam de nos ensinar o quanto é bom também o esquecimento. É a coisa mais saudável que existe. Se não fosse um erro de uma máquina, aqueles precisos instantes no tempo e no espaço teriam sido levados para sempre pela enxurrada; as palavras escritas, embora ainda gravadas na tela do computador, estavam tão em branco quanto todos os sentimentos, desejos e intenções que originalmente as orbitavam. Fiquei, então, me perguntando: vale a pena voltar? Não faço ideia; teria passado um bom tempo ainda pensando nisso, se meus anfitriões não tivessem me puxado para o bem-vindo almoço.

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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