A segunda visita dos Mórmons

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No quarto, acabara de acordar de uma soneca. Ao lado da cama, o livro responsável pelo sono repentino. Na sala, alguém conversava baixinho.

Quando fui cochilar, deixei meu filho e seu amigo jogando videogame. Comprei para o garoto o Xbox que ele me cobrava fazia tempo. A qualidade dos gráficos é incrível, ele me disse, e no sorriso e alegria vi o investimento justificado. As imagens na TV de 40 polegadas são imagens de um filme de Hollywood: policiais perseguindo bandidos numa Nova York cinematográfica e tudo sob o controle deles, freneticamente manipulando o joystick. O amigo ficou besta com tanta tecnologia e disse que já começara sua campanha de azucrinar o pai. São garotos e gostam de games, também curtem quadrinhos e são expert em filmes de fantasia: discutem detalhes de O Senhor dos Anéis e Harry Potter com a mesma seriedade dos ambientalistas, preocupados com os estragos irremediáveis na camada de ozônio.

Deixei-os com o brinquedo e me tranquei no quarto. Fazia um frio desgraçado e a ideia de ficar no escritório não me entusiasmou, saquei daquele livro e duas páginas depois dormia o sono mais preguiçoso, embalado pela chuva lá fora. Acordei perto das dezessete horas e quando me dirigia ao banheiro, ouvi uma fala estranha, de alguém que explicava, com sotaque americano, o encontro que teve certo homem com Deus. Eram os mórmons e explicavam a meu filho e a seu colega a aventura de Joseph Smith, quando recebeu a anunciação do “quinto evangelho”.

Não fui à sala, decerto não eram os mesmos mórmons da última visita, acontecida há dez anos. A voz, entretanto, era a mesma daquele jovem: um menino nos seus dezenove, talvez vinte e poucos anos. Parei no corredor e fiquei ouvindo. Parece que nos anos 1800, em certa região do estado de Nova York, o jovem Joseph Smith encontrava-se num dilema: precisava de uma religião, mais do que de um emprego. Pululavam mais de mil seitas cristãs e em nenhuma nosso herói encontrava respostas para suas perguntas fundamentais. Com quatorze anos buscou orientação na bíblia e parece que achou em Tiago 1:5. Em 1820 dirigiu-se a um bosque e, de joelhos, pôs-se a orar. A oração funcionou. Diante do crente embasbacado, surgiram dois seres transcendentais. Não eram anjos, mas o próprio Deus e seu filho, já curado dos pregos. Deus estava ali porque partilhava da opinião do jovem sedento de fé, e considerava a experiência religiosa de todo mundo, a oeste de Manhattan, um absurdo. Ele, o profeta escolhido, precisava fundar a verdadeira religião, mais que isso, restabelecer o sacerdócio, enfrentar a sanha assassina dos fanáticos e outras miudezas como a construção de templos que pudessem abrigar os milhares de novos fiéis.

Os meninos pareciam interessados, alguma coisa naquela história lhes era familiar: há um herói em conflito com seu mundo que é chamado para viver uma grande aventura, para a qual não se julga digno ou capaz, afinal, fundar uma nova religião, quando o mundo é uma babel de fanáticos delirantes, não devia ser fácil, mas não estava em seu poder decidir, adentrara o bosque e ouvira a voz de Deus. E se fora escolhido, fizera por merecer, passou no mesmo teste de Moisés, Abraão e Maomé. E missão dada é missão cumprida, ainda mais quando dada por Deus. Enfrentaria os inimigos, os sectários das seitas rivais. No final, a vitória haveria de ser sua, e com a Igreja consolidada, podia morrer. Seu espírito, liberto da carne, habitaria o outro mundo.

Os elementos da história se encaixam no modelo proposto por Campbell. Sua tese é a de que todos os mitos como Prometeu, Buda ou Jesus Cristo, só pra citar alguns, seguem essa estrutura. É chamada de A Jornada do Herói. Começa com o herói vivendo em seu mundo até o chamado para a aventura e depois seguem os estágios: encontro com o mentor ou ajuda sobrenatural, cruzamento do primeiro portal, quando o herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico, no caso do Joseph, o bosque onde se encontra com Deus, até os estágios finais que incluem o caminho de volta, ressurreição do herói e regresso com o elixir. O mito de Smith está aí delineado. A tese de Campbell é a de que todos os mitos seguem esse padrão e explica tal conceito a partir do estudo dos arquétipos de Jung e o inconsciente coletivo de Freud, dentre outros estudos. Mas não quero me aprofundar nessa questão, se cito é por causa do roteirista Christopher Vogler, que se valeu dessa teoria para criar roteiros de estrondoso sucesso em Hollywood. Mais tarde sua versão da tese de Campbell se transformaria em livro: “A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas”, que de cara influenciou 10 filmes produzidos pela empresa Disney, entre 1989 e 1998.

Ali no corredor, acompanhando a história, ouvi quando meu filho fez a pergunta que apressaria os mórmons a deixar aquela casa. Abraão conhecia Aladim?, ele perguntou. O colega ao lado reprimiu o riso e os mórmons se entreolharam. Não estavam sendo gozados. Posso garantir. Meu filho é puro, e insiste em morar na Terra do Nunca, ademais fui eu o responsável pela confusão: naquela semana lhe dei de presente uma coleção de pequenas biografias, ricamente ilustradas, que ele adorou. Os pequenos livros, bem produzidos, contam as histórias de figuras reais e imaginárias. Ao lado de Marco Polo, estão Jesus e Buda, também Abraão, Moisés e Aladim. Com tanta informação dos games, gibis, filmes e livros, meu menino maluquinho fez a confusão e colocou, no mesmo universo, dois personagens de mundos diferentes. Depois eu lhe esclareci a impropriedade, seria o equivalente a colocar Frodo e Harry Potter na mesma história. Ele entendeu e soltou uma gargalhada.

Fui ao encalço dos mórmons, em pensamento os acompanhei descendo os degraus lá de casa. Não pareciam satisfeitos, sentiam que perderam tempo com os dois fedelhos. Um absurdo a pergunta do moleque – imaginei que conversaram entre si – onde já se viu situar Abraão e Aladim na mesma história? É o que dá essa educação de hoje, os pais estão perdendo esses meninos, como vão crescer e amadurecer, como vão enfrentar a realidade se o que lhes dão é essa dose diária de fantasia, em filmes, gibis e jogos eletrônicos? Não me admira nada, disse o mórmon mais sério, que acabem perdendo o senso da realidade.

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[author_info]Nivaldo Tenório publicou A Grande Torre (2002) e Dias de febre na cabeça, pela u-Carbureto, com segunda edição pela Confraria do Vento, a ser lançada este ano.

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